Em entrevista ao podcast Você Está Contratado, Bia Vianna fala sobre neurociência, carreiras múltiplas e os desafios da inclusão no ambiente corporativo. Para a especialista, as empresas precisam transformar conhecimento em prática e aprender a fazer perguntas que nunca fizeram.
Imagine conquistar uma oportunidade de emprego, chegar ao escritório no primeiro dia, olhar para o prédio e decidir voltar para casa. Foi exatamente o que aconteceu com Bia Vianna quando tinha cerca de 18 anos. Vinda de uma família de classe baixa do subúrbio do Rio de Janeiro, ela havia conseguido uma vaga de recepcionista bilíngue. Ao se deparar com aquele ambiente corporativo, com pessoas formalmente vestidas e uma estrutura completamente diferente da sua realidade, sentiu medo e foi embora. Sua mãe a incentivou a voltar. Anos depois, a experiência se transformou em uma das histórias que Bia utiliza para explicar um problema que continua presente nas organizações: contratar alguém e presumir que essa pessoa já sabe como pertencer àquele ambiente.
A história foi compartilhada durante sua participação no podcast Você Está Contratado, apresentado por Jederson Beck e Marcelo Nóbrega. Especialista em neurociências pela USP, pós-graduada em Direitos Humanos e Responsabilidade Social pela PUC do Rio Grande do Sul e cofundadora do Centro de Estudos sobre Gestão da Inclusão (Ecos), Bia construiu uma trajetória profissional que passou pela moda, pelo marketing, pela comunicação e pela consultoria em diversidade e inclusão. Uma carreira que dificilmente caberia nas descrições tradicionais de cargos e que ajuda a entender sua defesa de um mercado de trabalho mais aberto a diferentes experiências, origens e formas de pensar.
Bia se define como uma profissional multi, expressão que demorou mais de quatro décadas para assumir plenamente. Durante a conversa, explicou que existem diferentes caminhos para uma carreira com múltiplas atividades. Algumas pessoas acumulam profissões porque possuem interesses e habilidades variados, enquanto outras precisam encontrar diferentes fontes de renda para sobreviver. Para ela, essa distinção é fundamental em um país marcado pela desigualdade social. Muitas vezes, a capacidade de empreender, improvisar e desenvolver novas competências surge da necessidade. A própria Bia encontrou novos caminhos profissionais ao perceber que suas experiências anteriores poderiam contribuir para áreas completamente diferentes. Hoje, acredita que o mercado ainda precisa rever a expectativa de carreiras lineares e deixar de interpretar toda mudança de direção como sinal de instabilidade.
Sua aproximação com a diversidade aconteceu quando ainda trabalhava com marketing e comunicação e passou a atender a Feira Preta, iniciativa voltada ao empreendedorismo negro. A experiência ampliou sua percepção sobre as desigualdades sociais e despertou o interesse por questões que ultrapassavam sua atividade profissional naquele momento. Foi então que decidiu estudar neurociências, motivada por uma pergunta bastante específica: onde nascem o preconceito e a discriminação? Seu trabalho de conclusão de curso investigou se o cérebro seria racista. A conclusão que apresentou durante a entrevista foi que o cérebro aprende com o ambiente em que está inserido. Essa perspectiva passou a orientar sua atuação profissional, especialmente na compreensão de como experiências, emoções e padrões aprendidos influenciam o comportamento humano.
Ao levar essa reflexão para o universo corporativo, Bia questiona a maneira como muitas empresas conduzem seus programas de diversidade e inclusão. Segundo ela, existe uma tendência de reproduzir iniciativas de outras organizações sem considerar as particularidades de cada negócio, de seus funcionários e até da região onde está localizado. O Brasil reúne realidades muito diferentes, e uma iniciativa aplicada em São Paulo não necessariamente produzirá os mesmos resultados em outras partes do país. Antes de implementar novos projetos, a especialista defende que as organizações investiguem sua própria realidade, reformulem perguntas e utilizem efetivamente os indicadores que já possuem. Pesquisas de clima organizacional e levantamentos sobre representatividade, por exemplo, perdem boa parte de sua utilidade quando seus resultados ficam restritos aos relatórios e não participam das decisões.
A conversa também abordou uma questão que costuma gerar dúvidas entre profissionais de recursos humanos: depois de tantos anos investindo em treinamentos, por que a diversidade ainda provoca tantos conflitos? Bia acredita que chegou o momento de aprofundar o debate e desenvolver o que chama de fluência em diversidade e inclusão. O letramento, que envolve conhecer conceitos, compreender diferenças e identificar preconceitos, continua sendo necessário, especialmente porque novas pessoas chegam constantemente às organizações. Entretanto, esse conhecimento precisa amadurecer e orientar as relações cotidianas. Hoje, qualquer profissional consegue encontrar explicações sobre diversidade e inclusão com relativa facilidade, inclusive utilizando ferramentas de inteligência artificial. A dificuldade aparece quando é necessário transformar essas informações em atitudes, lidar com situações desconfortáveis e tomar decisões que envolvem pessoas com experiências muito diferentes.
Um exemplo discutido no episódio foi a dificuldade que alguns gestores relatam ao dar feedback a funcionários de determinados grupos sociais. O receio de utilizar palavras inadequadas, provocar conflitos ou ser interpretado de maneira equivocada pode comprometer conversas importantes para o desenvolvimento profissional. Para Bia, sentimentos como medo, frustração e desconforto precisam fazer parte das discussões sobre inclusão. Os líderes também devem ter espaço para reconhecer suas dificuldades e buscar orientação. Durante o debate, surgiu uma reflexão que sintetiza parte desse desafio: “Uma conversa difícil é uma série de conversas fáceis que não aconteceram”. A construção de relações mais abertas, com diálogo frequente, pode evitar que problemas sejam acumulados até se tornarem situações aparentemente impossíveis de resolver. Essa prática exige continuidade e dificilmente será desenvolvida apenas com palestras, treinamentos pontuais ou campanhas realizadas em datas comemorativas.
Outro ponto levantado durante a entrevista foi a resistência que pode surgir quando as empresas começam a contratar profissionais com experiências, origens e características diferentes daquelas predominantes em suas equipes. Bia observa que existe uma contradição entre o discurso de valorização da diversidade e a disposição para modificar estruturas já estabelecidas. As organizações costumam valorizar a inovação, mas nem sempre demonstram a mesma abertura quando novas ideias partem de pessoas que não pertencem aos grupos tradicionalmente presentes nos espaços de decisão. A especialista relaciona parte dessa resistência à tendência humana de recorrer a padrões conhecidos, que exigem menos esforço cognitivo. Entretanto, depois que um profissional recebe informações e treinamento sobre preconceitos e vieses, torna-se necessário assumir responsabilidade por suas atitudes. Continuar atribuindo determinados comportamentos exclusivamente aos vieses inconscientes pode acabar funcionando como uma justificativa para evitar mudanças.
É nesse contexto que a história do primeiro emprego ganha um significado especial. Ao recordar o medo que sentiu diante daquele prédio comercial, Bia chama a atenção para uma etapa frequentemente tratada como mera formalidade pelas empresas: a integração de novos funcionários. Um profissional pode ter competência para desempenhar determinada função e, ainda assim, sentir-se completamente deslocado ao entrar em um ambiente desconhecido. Sua experiência demonstra a importância de compreender a trajetória individual de quem chega, identificar possíveis dificuldades e estabelecer condições para que essa pessoa desenvolva um sentimento de pertencimento. Um processo de integração que se limita a apresentações institucionais, documentos e treinamentos online pode deixar de perceber questões fundamentais. Como resumiu a especialista durante a entrevista, “o pertencimento começa no primeiro dia”.
A própria trajetória de Bia também serviu para discutir a importância do autoconhecimento e da mentoria na construção de uma carreira. Ela contou que, durante anos, ouviu de uma amiga e mentora que seu perfil profissional não combinava com os limites de um emprego tradicional. Mesmo depois de empreender, decidiu experimentar o mundo corporativo porque desejava aprender e buscava a segurança de um vínculo empregatício. Com o tempo, percebeu que precisava recuperar sua autonomia e voltou a empreender. Bia defende que conversas com pessoas mais experientes podem ajudar profissionais a identificar possibilidades que ainda não conseguem enxergar. Sua sugestão é simples: procurar alguém que admire, inclusive pelo LinkedIn, e pedir 30 minutos de conversa. Uma troca aparentemente pequena pode provocar reflexões importantes sobre escolhas, habilidades e caminhos profissionais.
Ao encerrar sua participação, Bia revelou que somente aos 44 anos conseguiu afirmar, com convicção, que era uma profissional multi e que não precisava escolher uma única atividade para definir sua identidade. Atualmente, aos 45, entende que diversificar seu trabalho também é uma forma de encontrar satisfação pessoal. Sua mensagem final foi dirigida especialmente às mulheres, que frequentemente enfrentam obstáculos adicionais para reconhecer e valorizar suas próprias competências. Para ela, acreditar no próprio conhecimento, continuar aprendendo e compreender o que realmente faz sentido para cada pessoa são atitudes essenciais para construir uma trajetória profissional mais autêntica.
A entrevista deixa uma reflexão especialmente relevante para empresas e profissionais de recursos humanos. A contratação de pessoas com diferentes origens e experiências amplia as possibilidades de uma organização, mas exige atenção ao ambiente que essas pessoas encontrarão. Afinal, os indicadores de diversidade podem mostrar quem conseguiu entrar em uma empresa, enquanto as relações cotidianas ajudam a revelar quem encontra espaço para permanecer, participar e crescer.
Assista ao episódio da Você Está Contratado com Bia Vianna:










