A queda da Eldorado no Brasil e da CBS News Radio nos Estados Unidos revela uma verdade desconfortável para toda a mídia tradicional: o público não desapareceu — ele apenas deixou de depender das emissoras.
Durante décadas, rádio significava companhia e credibilidade. As pessoas se organizavam em relação ao tempo das emissoras, seja rádio ou TV. As emissoras definiam tendências, revelavam artistas, formavam repertório cultural e funcionavam como intermediárias quase absolutas entre conteúdo e audiência.
Mas algo mudou e não há como negar e muito menos querer voltar atrás.
O fechamento da Rádio Eldorado no Brasil e o encerramento da CBS News Radio nos Estados Unidos mostram que talvez o problema nunca tenha sido falta de público para conteúdo de qualidade. O problema foi outro: o mundo deixou de depender das emissoras para chegar até ele.
1. As duas eram marcas fortes e relevantes e não apenas emissoras
A CBS News, assim como a Rádio Eldorado, representava um jeito específico de consumir conteúdo. A audiência não simplesmente desapareceu, ela migrou.

O público que busca curadoria, profundidade e credibilidade continua existindo, mas ele hoje está disperso entre podcasts, YouTube, streaming, newsletters, redes sociais… ou seja, consumo sob demanda.
As duas marcas não perderam valor editorial, mas o formato tradicional é que deixou de ser o centro da experiência de consumo da informação.
2. As duas tinham credibilidade
Esse talvez seja o paralelo mais forte. A CBS News construiu reputação jornalística por quase 100 anos. A Eldorado construiu reputação cultural e musical por quase 70 anos.
Em ambos os casos, existe algo extremamente difícil de criar hoje: credibilidade acumulada ao longo de décadas.
É necessário nos questionarmos: como marcas tão respeitadas chegaram ao ponto de fecharem as portas?
No mercado atual, qualidade editorial já não recompensa. É necessário se adaptar com capacidade de distribuição, adaptação de linguagem e presença multiplataforma. O preço cobrado pelo mercado é alto demais.
3. O fechamento vai além da questão econômica.
A reação emocional gerada nos dois casos diz muito.
No caso da Eldorado:
- manifestações na Paulista
- movimento #FicaEldorado
- documentário
- relatos emocionados

No caso da CBS:
- impacto interno
- saída de jornalistas históricos
- debate político/editorial
- percepção de fim de uma era
Ambos os casos geram sensação de “desaparecimento de referência”. Quando uma emissora histórica fecha, não desaparece apenas um negócio. Desapareceu um modelo cultural.
4. As duas sofreram com a mudança do consumo de áudio
Aqui temos um ponto que se conecta perfeitamente com o que eu e meus amigos Heródoto Barbeiro e Nilo Frateschi Jr trouxemos no livro Manual do New Rádio e A Reinvenção do Rádio.
A CBS fala explicitamente sobre:
- a mudança de estratégia das afiliadas
- a necessidade de investir em novos formatos
- a necessidade de crescer “onde as novas audiências estão”
Ou seja:
- o áudio continua forte
- o jornalismo continua forte
- a música continua forte
Mas o intermediário tradicional perdeu poder.

Hoje:
- o ouvinte monta sua própria rádio no Spotify
- o público escolhe podcasts e programas específicos
- jornalistas viram creators
- influencers “viram” jornalistas
- cortes circulam no TikTok
- programas e canais são independentes
O centro saiu da emissora e foi para o ecossistema. O oligopólio acabou! FIM! Está tudo descentralizado.
A crise da intermediação na comunicação
As duas emissoras nos provam que marca forte sem transformação digital não é suficiente. Ou você se adapta ou morre. Tanto a Eldorado quanto a CBS tinham tradição, autoridade, credibilidade, reconhecimento, legado e profissionais talentosos. E isso não foi suficiente para garantir a sobrevivência.
E não se engane, a televisão está indo pelo mesmo caminho. A contratação de figuras como Felca e Virgínia pela Rede Globo é a tentativa de atrair uma audiência mais jovem. Mas esse ainda é o modelo antigo de operar. Onde se contratavam a celebridade que estava dando mais audiência na outra emissora. Eles não entenderam que o jogo mudou.
As pessoas hoje querem o conteúdo fácil, rápido, gratuito, sem propaganda, na palma da mão, na vertical e um espaço pra eles meterem o pau no apresentador/artista/influencer/creator/jornalista (aqui, dê o nome que você quiser) quando não gostarem da fala dele(a).

Hoje, jornalistas e comunicadores individuais possuem mais conexão direta com audiência do que as próprias empresas que os empregam. Eles estão de frente com o público. O vidro da televisão e o dial do rádio foram quebrados. A audiência tem direto acesso a quem eles acompanham. E o criador de conteúdo sabe na mesma hora se o conteúdo foi positivo ou negativo para a sua imagem. E nada de ficar esperando pela cartinha do IBOPE com a audiência. Cada plataforma já entrega, de mão beijada, um mídia kit que antes as agências ganhavam uma fortuna pra fazer.
A pergunta é: quem consegue continuar relevante no bolso, no feed, no algoritmo e, principalmente, na memória das pessoas? A Eldorado e a CBS News Radio talvez tenham descoberto tarde demais que tradição sem reinvenção vira arquivo.
Fernando Vítolo é comunicador, escritor e entrevistador. Há mais de uma década trabalha contando histórias, conectando pessoas e produzindo conteúdo multiplataforma. @fernando.vitolo









