O debate presidencial virou uma piada pronta. Lula não foi, Flávio desistiu, Renan conseguiu uma decisão do STF para participar e a Globo mandou todo mundo para casa. E eu aqui, com a minha campanha Nenhum dos Candidatos, ganhando material de graça.
Eu juro que tentei. Lancei minha campanha Nenhum dos Candidatos para fazer uma provocação bem simples: gostaria de ouvir dos candidatos por que eu deveria votar neles, em vez de passar a eleição inteira escutando por que não devo votar no outro. Já fui criticado por gente de esquerda, de direita e provavelmente ainda vou apanhar de quem nem decidiu em quem votar. Mas aí aconteceu o debate da Globo. Ou melhor, não aconteceu. E fiquei pensando que, se eu tivesse contratado os melhores roteiristas de comédia do país, dificilmente eles teriam conseguido escrever uma história tão absurda.
Vamos aos fatos, porque a sequência de acontecimentos merece ser apreciada.
Lula avisou que não iria ao debate. Até aí, é um direito dele. A Globo tinha previsto manter o púlpito vazio, com o nome do candidato, conforme as regras que haviam sido assinadas pelos partidos, inclusive pelo PT. Só que a campanha de Lula recorreu à Justiça, e o TSE determinou que a emissora não poderia mostrar o púlpito vazio nem permitir que os outros candidatos fizessem perguntas ao presidente ausente.
Eu precisei ler duas vezes.
O candidato resolve não comparecer, mas a televisão não pode mostrar o lugar onde ele deveria estar. O púlpito virou praticamente uma testemunha protegida. Daqui a pouco, teremos que colocar uma tarja preta sobre os móveis para preservar a imagem dos ausentes.
A ministra Estela Aranha justificou a decisão argumentando que o formato poderia prejudicar quem não estivesse presente e criar um desequilíbrio no debate. É uma interpretação jurídica que merece ser considerada. Mas também existe uma questão importante do outro lado: mostrar um púlpito vazio é uma forma de censurar o candidato ausente ou simplesmente registrar uma decisão tomada por ele? A Globo entendeu que houve interferência indevida em sua liberdade editorial. Eu gostaria de ver essa discussão aprofundada, porque a fronteira entre garantir direitos e controlar o trabalho da imprensa é um assunto sério demais para ser resolvido sem debate. Olha aí a ironia.
Enquanto isso, outro personagem tentava entrar na festa. Renan Santos, do partido Missão, não havia sido incluído inicialmente no debate e conseguiu uma decisão do ministro Gilmar Mendes, do STF, garantindo sua participação. A Globo tinha seus critérios, a legislação eleitoral também estabelece regras para a presença obrigatória de candidatos, e o ministro entendeu que Renan deveria ser incluído conforme as condições previstas pela própria emissora.
Minha opinião é que um debate presidencial deveria buscar a participação do maior número possível de candidatos. Quanto mais projetos apresentados, mais elementos o eleitor tem para comparar. Mas também me pergunto se é adequado que o Judiciário precise decidir, na última hora, quem entra no estúdio de uma emissora. A discussão envolve direitos dos candidatos, regras eleitorais e liberdade editorial. E olha que ainda nem começou o debate.
Faltava Flávio Bolsonaro.
Ele havia confirmado sua participação, mas decidiu desistir, alegando que a proibição do púlpito vazio de Lula representava censura. Aqui cabe uma correção importante para não transformar coincidência em notícia: Flávio anunciou sua desistência minutos antes da decisão de Gilmar Mendes sobre Renan Santos. Portanto, não dá para afirmar que saiu correndo depois de descobrir que Renan participaria. Sua justificativa pública foi a decisão do TSE.
Mesmo assim, continuo com uma pergunta. Por que desistir de um debate no qual seria possível apresentar suas propostas, responder aos adversários e explicar aos eleitores sua visão para o país? A discussão sobre a liberdade da imprensa é legítima, mas qual seria o impedimento de participar e, inclusive, questionar aquela decisão diante das câmeras?
Lula também tinha suas razões para não comparecer. Em entrevista ao Flow Podcast, realizada no horário em que aconteceria o debate, afirmou que considera esses encontros infrutíferos e criticou a dinâmica de provocações, piadas e tentativas de lacração. Defendeu que uma disputa presidencial é séria demais para esse tipo de espetáculo.
Concordo que uma eleição presidencial merece discussões sérias. Mas fiquei curioso com a escolha do ambiente. Lula preferiu participar de um podcast que, embora também possa produzir boas entrevistas, tem uma proposta diferente de um debate eleitoral tradicional. Nada contra o Flow. Aliás, sou um defensor dos podcasts. O problema não é conversar com um apresentador de podcast, independentemente de sua formação. A questão é que, em uma entrevista individual, não existe a mesma oportunidade de confrontar propostas diretamente com os concorrentes.
E foi justamente essa oportunidade que desapareceu.
Ronaldo Caiado, Romeu Zema e Augusto Cury já estavam nos estúdios da Globo, preparados para participar. Renan também havia conquistado judicialmente o direito de estar presente. Imagino a situação de quem organizou a agenda, preparou os argumentos e chegou pronto para discutir o Brasil. A emissora, diante das decisões judiciais e das desistências, anunciou o cancelamento.
A Globo explicou que as mudanças de última hora provocaram insegurança jurídica e interferiram nas regras previamente acordadas. Faz sentido discutir essa justificativa. O que me deixou intrigado foi a frase da própria emissora, ao afirmar que seu dever é promover a democracia e oferecer aos eleitores a oportunidade de comparar projetos.
Pois é. Mas os candidatos que estavam lá acabaram sem o debate.
Será que realmente não existia nenhuma alternativa para realizar o encontro? Não seria possível adaptar o formato, preservar os direitos envolvidos e manter a oportunidade de os participantes apresentarem suas ideias? Não tenho acesso às avaliações jurídicas internas da Globo para afirmar que isso seria viável. Mas considero a pergunta perfeitamente razoável.
Outra questão que me ocorreu diz respeito à audiência. Se Lula e Flávio não estariam presentes, qual seria o interesse da emissora em manter o programa? Não tenho elementos para afirmar que o cancelamento teve qualquer relação com a ausência dos dois. A explicação oficial foi a insegurança jurídica. Ainda assim, o episódio convida a uma reflexão sobre o espaço que as emissoras oferecem aos candidatos menos conhecidos e sobre a importância que a televisão atribui ao confronto entre os nomes de maior projeção.
Será que nos acostumamos tanto com o espetáculo da polarização que um debate dedicado a apresentar projetos de governo parece menos interessante do que uma briga?
E aqui volto à minha campanha.
Quando lancei Nenhum dos Candidatos, inspirada no filme Chuva de Milhões, minha intenção era provocar exatamente essa discussão. Não estou pedindo que ninguém deixe de votar, muito menos dizendo em quem alguém deveria votar. Quero chamar a atenção para a maneira como discutimos política e para a responsabilidade que acompanha nossas escolhas.
Recebi críticas de pessoas dos dois lados, algumas bastante indignadas. Curiosamente, a discussão muitas vezes acaba seguindo o roteiro que estou questionando. Se faço uma crítica a um candidato, alguém imediatamente pergunta por que não estou criticando o outro. Se critico o outro, a cobrança se inverte. Parece que existe uma obrigação de escolher um lado antes mesmo de começar a conversar.
É o mesmo raciocínio que observo nas campanhas eleitorais: vote em mim porque o outro é pior. Gostaria de ouvir mais discussões sobre educação, segurança pública, saúde, economia, dívida pública e tantos outros assuntos. Sei que os programas de governo estão registrados no TSE e podem ser consultados. Minha crítica é à comunicação política e ao espaço que as propostas efetivamente recebem no debate público.
Também me incomoda uma contradição recorrente nas discussões sobre democracia. A liberdade de expressão costuma ser defendida com entusiasmo quando protege aquilo de que gostamos. Quando protege o adversário, começam as ressalvas. Isso vale para eleitores, políticos, militantes e qualquer pessoa que participe do debate público. Tenho até uma frase para provocar essa reflexão: “A ditadura é boa, contanto que seja a minha.” Evidentemente, trata-se de uma ironia sobre comportamentos autoritários, não de uma classificação jurídica do regime brasileiro.
No episódio da Globo, vimos disputas judiciais sobre um púlpito vazio e sobre a participação de um candidato, dois concorrentes decidindo não comparecer e outros que estavam preparados para debater ficando sem programa. Cada decisão tem seus fundamentos e suas consequências, mas o resultado é inegável: o eleitor perdeu aquela oportunidade de assistir a uma comparação pública de propostas.
A foto que acompanha este artigo é minha maneira de representar essa confusão. Estou no centro de um estúdio imaginário, de terno, com uma expressão de quem não sabe mais o que fazer. De um lado, o púlpito de Lula. Do outro, o de Flávio Bolsonaro. Os dois vazios. E, no canto, Renan Santos aparece em uma intervenção bem-humorada, gritando: “EU VIM, HEIN!”. Antes que alguém interprete a imagem como notícia, esclareço que se trata de uma sátira. É bom avisar, né?
Continuo acompanhando a eleição e esperando discussões que ajudem a responder à pergunta que motivou minha campanha. Sei que nenhum debate resolveria sozinho todas as dúvidas do eleitor, mas sua realização poderia ter contribuído para isso.
No fim, gastamos tempo discutindo quem poderia participar, quem tinha o direito de faltar, o que poderia aparecer no cenário e quem poderia fazer perguntas. Conseguimos transformar até um móvel em assunto de tribunal. Só ficou faltando aquilo que deveria justificar toda essa estrutura: os candidatos discutindo o futuro do Brasil.
A propósito, para quem ainda não entendeu o espírito da minha campanha, continuo com a mesma pergunta: não me diga quem é o pior. Diga por que eu deveria escolher você.
Fernando Vítolo é comunicador, escritor e entrevistador. Há mais de uma década trabalha contando histórias, conectando pessoas e produzindo conteúdo multiplataforma. @fernando.vitolo










