• Home
  • Política
  • DA TV PARA AS URNAS — E DE VOLTA PARA CASA: os famosos derrotados em 2026
Política

DA TV PARA AS URNAS — E DE VOLTA PARA CASA: os famosos derrotados em 2026

Apresentadores, atores, cantores, influenciadores e estrelas do esporte descobriram nas eleições de 2026 que milhões de seguidores, anos de televisão e reconhecimento nacional não significam necessariamente votos. É sinal de amadurecimento do eleitor ou apenas desgaste da velha fórmula de transformar fama em candidatura?

Durante décadas, partidos brasileiros enxergaram artistas, jogadores de futebol, apresentadores de televisão e outras celebridades como atalhos eleitorais.

A lógica parecia simples: se o eleitor já conhece o rosto, o candidato larga na frente.

As eleições de 2026 mostraram que essa matemática pode ter ficado mais complicada.

José Luiz Datena, Rachel Sheherazade, Silvia Abravanel, Sikêra Jr., Geraldo Luís, Tiririca, Humberto Martins, Edmundo, Vanderlei Luxemburgo, Manoel Gomes — o Caneta Azul —, MC Gui e uma extensa relação de influenciadores, ex-BBBs, esportistas e artistas terminaram o primeiro turno sem conquistar o mandato que buscavam.

Não existe, evidentemente, uma categoria oficial da Justiça Eleitoral chamada “candidatos famosos”. Por isso, qualquer lista depende do critério de notoriedade adotado. Cruzando levantamentos publicados por UOL, Folha, Poder360, Exame, CNN, ge e veículos de entretenimento, entretanto, é possível encontrar dezenas de personalidades conhecidas nacional ou regionalmente que ficaram de fora.

Alguns dos principais famosos derrotados em 2026

NomeConhecido porDisputaVotação aproximada
Datenajornalista/apresentadorDep. federal – SP51 mil
Richard Rasmussenapresentador/biólogoDep. federal – SPquase 51 mil
Victor RuizinfluenciadorDep. federal – SP46,8 mil
Sikêra Jr.apresentadorDep. federal – SP37 mil
Marco Antonio Villahistoriador/comentaristaDep. federal – SPcerca de 31 mil
Adrilles Jorgecomentarista/ex-BBBDep. federal – SP26,7 mil
Douglas Viegas, “Ninja”influenciador/ex-jogadorDep. federal – SP26,6 mil
Rachel Sheherazadejornalista/apresentadoraDep. federal – SP22,4 mil
Silvia AbravanelapresentadoraDep. federal – SP22,4 mil
Padre Kelmonpersonalidade política/religiosaDep. federal – SPcerca de 21 mil
Netinho de Paulacantor/apresentadorDep. federal – SP19,3 mil
Jean Wyllysjornalista/ex-BBBDep. federal – SP18 mil
Eduardo Xaropinhohumorista/dubladorDep. federal – SP15,3 mil
Wilker LeãoinfluenciadorDep. federal – DF11,8 mil
Geraldo Luísjornalista/apresentadorDep. federal – SP10,1 mil
Luís Fabianoex-jogadorDep. federal – SP9,6 mil
Menina da BotainfluenciadoraDep. federal – MGcerca de 9,8 mil
MC GuicantorDep. federal – SP7,3 mil
Manoel Gomes, “Caneta Azul”cantor/influenciadorDep. federal – SP7,2 mil
Frank AguiarcantorDep. federal – SP7,1 mil
Dineiex-jogadorDep. estadual – SP6,3 mil
TiriricahumoristaDep. federal – CEcerca de 5,5 mil
Val Marchiorisocialite/apresentadoraDep. federal – SPcerca de 5 mil
Caio do Vovô AnésioinfluenciadorDep. estadual – SP4,2 mil
Lucas Penteadoator/ex-BBBDep. federal – SP3,4 mil
Antônia Fontenelleatriz/apresentadoraDep. federal – RJcerca de 3,9 mil
Inês Brasilcantora/influenciadoraDep. estadual – RJ3,1 mil
Andréa Sorvetãoex-PaquitaDep. federal – RJ2,5 mil
ConradocantorDep. estadual – RJ2,2 mil
MarquitohumoristaDep. estadual – SP1,6 mil
Humberto MartinsatorDep. federal – RJ1.124
Alexandre Finazziex-jogadorDep. federal – SP1.069
Débora Rodriguesautomobilismo/TVDep. federal – SP891
Carla Prataex-bailarina/apresentadoraDep. estadual – SP409
Fabio Villa VerdeatorDep. estadual – SP386

Os números revelam situações quase inacreditáveis quando comparados ao grau de conhecimento público de alguns candidatos. Humberto Martins, ator presente durante décadas na televisão brasileira, recebeu pouco mais de mil votos. Fabio Villa Verde ficou abaixo de 400. Carla Prata, conhecida da televisão, teve pouco mais de 400.

Mas houve também derrotas com votações bastante significativas.

Matteus Amaral, vice-campeão do BBB 24, recebeu 51.437 votos no Rio Grande do Sul e terminou como suplente. Felipe Franco chegou a 59.518 votos tentando renovar seu mandato de deputado estadual em São Paulo. Leci Brandão obteve 53.149 votos e, depois de quatro mandatos consecutivos na Assembleia paulista, não conseguiu se reeleger. O cantor gospel Marcelo Aguiar teve 37.585 votos e também perdeu a cadeira.

No esporte, a lista é ainda maior.

O ex-jogador Edmundo recebeu 35.725 votos para deputado federal no Rio. Luís Fabiano teve 9.613 em São Paulo. Marcelinho Carioca recebeu 2.494 votos para deputado distrital no Distrito Federal. A campeã olímpica Sarah Menezes teve 10.516 votos no Piauí. Washington Coração Valente conseguiu 7.503 votos no DF. Vanderlei Luxemburgo recebeu 67.987 votos na disputa pelo Senado no Tocantins e não foi eleito.

E talvez o número mais impressionante seja o de Leila do Vôlei.

Senadora e uma das maiores jogadoras da história do esporte brasileiro, ela recebeu 686.340 votos tentando permanecer no Senado pelo Distrito Federal — e mesmo assim terminou fora das duas vagas em disputa.

Então o brasileiro aprendeu a votar?

É tentador olhar para a quantidade de celebridades derrotadas e responder simplesmente: sim. Mas seria uma conclusão apressada. Primeiro porque pessoas famosas também foram eleitas.

Thammy Miranda chegou à Assembleia Legislativa de São Paulo com 84.330 votos. Thiago Gagliasso conquistou uma cadeira na Câmara. Mario Frias foi reeleito. No esporte, Danrlei, Bobô e Luiz Lima conseguiram mandato, e Celso Russomanno garantiu mais uma reeleição.

Portanto, o eleitor brasileiro não rejeitou simplesmente a celebridade. Parece ter rejeitado parte das celebridades. E essa diferença é importante.

O que as urnas de 2026 sugerem é que reconhecimento de nome pode continuar sendo uma vantagem, mas não substitui necessariamente identificação política, estrutura partidária, militância, presença territorial, capacidade de mobilização e uma razão suficientemente forte para alguém sair de casa decidido a digitar aquele número na urna.

Ter 1 milhão de seguidores não significa ter 1 milhão de eleitores. A Menina da Bota chegou à campanha com aproximadamente 1,7 milhão de seguidores no Instagram. Terminou com menos de 10 mil votos. Essa talvez seja uma das mensagens mais interessantes da eleição.

Seguidor, automaticamente não se torna eleitor.

O eleitor cansou de artista na política?

Também não é tão simples. Existe uma diferença fundamental entre um ator que decide disputar sua primeira eleição e uma celebridade que já ocupou cargos durante anos.

Dizer genericamente que o eleitor estaria cansado de artistas “mamando nas tetas da máquina pública” colocaria todos esses candidatos no mesmo grupo, quando eles têm histórias completamente diferentes.

Rachel Sheherazade estreou nas urnas. Humberto Martins também. Silvia Abravanel fez sua primeira tentativa para um cargo federal. Luís Fabiano estreou na política eleitoral. Eles não estavam tentando conservar um mandato parlamentar.

Já Tiririca é um caso diferente. Ele chegou ao Congresso em 2010 como um fenômeno eleitoral, recebendo cerca de 1,3 milhão de votos. Foi reeleito em 2014, 2018 e 2022. Em 2026, transferiu seu domicílio eleitoral de São Paulo para o Ceará e terminou com pouco mais de 5 mil votos. Depois de quatro mandatos consecutivos, ficou sem cadeira pela primeira vez desde que entrou na política. Nesse caso, é legítimo perguntar se houve desgaste.

O mesmo vale para Leci Brandão, Felipe Franco, Marcelo Aguiar e outras figuras conhecidas que já exerciam mandato e não conseguiram renová-lo. Mas nem mesmo nesses casos a derrota prova, sozinha, uma rejeição ao fato de serem artistas ou celebridades.

Há outra pegadinha: ter muitos votos não significa necessariamente ser eleito

Grande parte das celebridades concorreu a deputado federal ou estadual. E essas eleições não funcionam simplesmente pelo princípio de “os mais votados entram”.

O Brasil utiliza o sistema proporcional. Primeiro é calculado quantas cadeiras cabem a cada partido ou federação a partir do conjunto de votos obtidos pela legenda e por seus candidatos. Depois são definidos os nomes que ocuparão essas vagas.

Por isso, candidatos com dezenas de milhares de votos podem ficar de fora enquanto outros, com votação individual inferior, conseguem mandato por outra legenda.

O próprio Tribunal Superior Eleitoral explica que, nessas disputas, o voto dado a um candidato também ajuda o partido ou a federação e que o desempenho coletivo da legenda participa diretamente da distribuição das cadeiras. Isso ajuda a explicar casos aparentemente contraditórios.

Portanto, não seria correto interpretar todo famoso derrotado como alguém que foi pessoalmente “rejeitado” pelo eleitorado. Alguns receberam poucos votos. Outros receberam muitos votos, mas estavam numa chapa incapaz de transformá-los em mandato.

O que 2026 parece realmente mostrar

Talvez a transformação esteja em outro lugar. Durante muito tempo, a celebridade podia ser apresentada ao eleitor praticamente como sua própria plataforma: “Você já me conhece”.

Em uma sociedade de televisão aberta, poucos rostos concentravam enorme parcela da atenção nacional. Hoje, essa atenção foi pulverizada.

Um apresentador conhecido por praticamente todo o país pode disputar atenção com um deputado que possui uma comunidade digital extremamente mobilizada, um líder religioso com uma rede própria, um influenciador político de nicho ou um candidato regional que trabalha há anos sua base eleitoral.

Conhecimento tornou-se diferente de engajamento. A pessoa pode reconhecer imediatamente Datena numa fotografia e ainda assim não cogitar votar nele. Pode ter acompanhado Humberto Martins durante 30 anos na televisão e jamais associá-lo à representação política. Pode rir de Caneta Azul, compartilhar seus vídeos e não considerá-lo uma opção para a Câmara dos Deputados.

Esse talvez seja o fenômeno mais importante revelado pelas urnas.

A fama produz atenção. Mas atenção e confiança eleitoral são moedas diferentes.

Os partidos que ainda imaginam ser possível pegar alguém com milhões de seguidores, imprimir um número abaixo de sua fotografia e automaticamente transformar audiência em votos talvez tenham recebido um recado em 2026.

O eleitor brasileiro pode não ter necessariamente “aprendido a votar” — expressão que pressuporia existir uma forma objetivamente correta de votar.

Mas parece ter mostrado algo igualmente relevante:

conhecer alguém já não é motivo suficiente para elegê-lo.

E, para dezenas de famosos que trocaram temporariamente os estúdios, os palcos, os gramados e as redes sociais pela campanha eleitoral, a mensagem das urnas foi bastante concreta.

Da TV para as urnas. E, desta vez, de volta para casa.

Fernando Vítolo é comunicador, escritor e entrevistador. Há mais de uma década trabalha contando histórias, conectando pessoas e produzindo conteúdo multiplataforma. @fernando.vitolo