Ontem eu postei uma imagem bem simples: eu segurando uma placa com a frase “Pare de idolatrar político. Você parece um idiota”.

Só isso.
Não pedi voto para Lula. Não pedi voto para Flávio. Não disse em quem votar. Não falei que um lado é melhor que o outro. Não fiz campanha. Fiz uma crítica à idolatria política.
E, mais uma vez, a internet veio abaixo.
Teve gente fazendo campanha pro Lula nos comentários. Teve gente fazendo campanha pro Flávio. Teve gente me chamando de isentão e dizendo que o Brasil está como está por culpa de pessoas como eu.
Ué. Se você não idolatra político, por que se ofendeu tanto?
Perdi uns 100 seguidores. Ou ganhei tranquilidade, não sei. Porque, sinceramente, se uma pessoa não suporta que alguém tenha uma opinião diferente da dela — e uma opinião tão básica quanto “não idolatre político” — talvez ela não estivesse ali para trocar ideia. Estava para encontrar alguém que repetisse o que ela já pensa.
E aí eu tenho uma dúvida muito sincera: por que a gente discute narrativas o tempo inteiro, mas nunca discute propostas de governo?
Eu sei em quem vou votar. A minha dúvida não é essa. A minha dúvida é por que tanta gente prefere discutir quem ama mais a democracia, quem ama mais o país, quem é do bem e quem é do mal, em vez de perguntar o básico:
- Como vão diminuir as filas do INSS?
- O que será feito para melhorar a segurança?
- Como as pessoas vão ter acesso à habitação?
- Qual é o plano para saúde, educação, emprego e infraestrutura?
- Quanto isso custa?
- De onde vem o dinheiro?
- Como vamos cobrar depois que a eleição acabar?
O jornalista Carlos Tramontina resumiu muito bem isso em uma fala no programa do Danilo Gentili: ele está esperando os candidatos aparecerem para dizer o que pretendem fazer pelo Brasil. E é exatamente isso. Cadê as propostas?
Porque, no fim, a eleição virou uma torcida organizada. A pessoa veste a camisa, levanta bandeirinha, cola adesivo no carro, quer foto com político, cria música de rockstar, trata o sujeito como celebridade e, pior, começa a defender até os erros dele.
Isso é idolatria.
Político não é pop star. Não é santo. Não é salvador. É servidor público. Está ali para servir aos interesses da população — e deveria ser cobrado por isso todos os dias.
Não é para ser aplaudido quando acerta. Acertar é obrigação. E, quando erra, tem de ser criticado. Sem passar pano porque é “do meu lado”.
O Rica Perrone falou algo muito interessante no Beja Me Mucho e que, para mim, traduz bem o perigo que estamos vivendo. Quando direita e esquerda blindam seus políticos em qualquer circunstância, os dois lados realizam “o sonho da vida dos políticos”: fazem o que querem porque sabem que sempre haverá uma torcida pronta para defender.
É isso.
Enquanto um lado chama qualquer crítica de perseguição, o outro faz exatamente a mesma coisa com os seus. A discussão deixa de ser sobre o país e vira uma guerra de tribos. E quem ganha com isso? Os políticos profissionais que se mantêm no poder enquanto a gente briga por eles na internet.
O Danilo Gentili também foi preciso ao dizer que parece que não existe mais espaço para ser uma pessoa normal, simplesmente cansada de político. Se você critica alguém da direita, automaticamente te carimbam como esquerda. Se critica alguém da esquerda, te carimbam como direita.
E, se não compra integralmente nenhum dos dois pacotes, te chamam de isentão.
Curioso, né? As pessoas vivem cobrando uma imprensa isenta. Mas, quando alguém tenta olhar para os fatos sem entrar na torcida, vira “isentão”. Que porra é essa?
Isenção não é ausência de opinião. É não entregar o cérebro para uma sigla, um líder ou um grupo. É poder reconhecer um acerto sem virar fã. E poder apontar um erro sem virar inimigo.
Daqui a dois anos, teremos eleição para prefeito e vereador. E, se nada mudar, as discussões serão as mesmas:
- “Eu voto pela democracia.”
- “Eu voto no amor.”
- “Eu voto para o país não virar comunista.”
- “Eu voto pelo fim da corrupção.”
Frases bonitas, fortes, de efeito. Mas que não respondem à principal pergunta: qual é o projeto?
Porque é muito confortável votar em uma sensação. É mais difícil ler proposta, comparar plano de governo, perguntar sobre orçamento, histórico, equipe, prioridades e resultados. Só que é justamente isso que deveria importar.
Outro dia vi uma reflexão que dizia algo muito simples: nenhum presidente vai entrar na nossa casa e nos ensinar a ser pessoas melhores. Política importa, claro que importa. Mas caráter também importa. É fácil apontar para Brasília, porque Brasília está longe. O espelho está perto demais.
A gente reclama de corrupção, mas comemora vantagem. Reclama de falta de educação, mas destrata quem trabalha para atender. Reclama do país, mas joga lixo no chão. Espera um político salvar o Brasil, enquanto deixa de fazer a própria parte.
Talvez por isso eu goste tanto dos quadrinhos do Tom Cotrim. Ele consegue mostrar com humor o que muita gente se recusa a enxergar: há quem grite “direita” e “esquerda” sem perceber que está sendo conduzido pela mesma lógica; há quem trate política como seita; e há quem já tenha escolhido “em qual corrupto vai votar” antes mesmo de cobrar qualquer proposta.

Não estou dizendo para ninguém deixar de votar. Pelo contrário: vote. Vote com consciência. Vote em quem você acredita. Mas não entregue sua autonomia, sua capacidade crítica e sua dignidade para político nenhum.
Defenda ideias. Cobre resultados. Mude de opinião, se os fatos mandarem mudar. E, principalmente, pare de tratar servidor público como ídolo.
Ele não precisa de fã.
O Brasil precisa de cidadão.
Fernando Vítolo é comunicador, escritor e entrevistador. Há mais de uma década trabalha contando histórias, conectando pessoas e produzindo conteúdo multiplataforma. @fernando.vitolo









