Parece Mas Não É

Anistia para todos

O governo quer que todo o poder político fique concentrado na capital do Brasil. O velho modelo político despreza a descentralização administrativa e acusa de golpistas os que querem que o poder não seja mobilizado pelas mãos de poucos. A elite governamental não admite que políticos liberais tomem parte do governo e ameacem a estrutura social e econômica do país. Qualquer desvio dessa diretriz é punido com severidade e, para isso, o governo conta com o apoio das Forças Armadas, prontas a intervir em qualquer região do Brasil e a usar da força e da violência para impedir que a oposição contamine outras regiões. O embate político sai do campo das ideias e propostas e cai no campo da força. 

O Poder Judiciário atua sob coordenação do governo. Os jornais dizem que  há uma contaminação de poderes e que isso não está previsto na Constituição do Brasil. Acusam os magistrados de atuar fora da lei e não aceitar a argumentação e a defesa dos acusados de golpe de Estado. Os sediciosos devem ser tratados com a máxima severidade e isso é combinado nos palácios da capital do país. Golpe de Estado não é uma ação incomum na América Latina, os países vizinhos também trocam constantemente de dirigentes, que chegam ao poder com o uso da força e implantam ditaduras. A região está muito longe do exemplo criado pela Constituição americana, que preserva o direito de liberdade, governo dos eleitos, e onde um  golpe de Estado é impensável. O Brasil vive há alguns anos em constante instabilidade política que se espalha pela sociedade no campo e nas cidades.

A alavanca para o  golpe é a radicalização política e o embate entre os dois maiores conglomerados partidários. Liberais de um lado e conservadores de outro. Um quer a autonomia regional, outro quer a centralização das decisões na capital. Os conservadores estão no poder e não perdem tempo. Aprovam rapidamente leis que restauram o controle do governo central sobre o Judiciário e as províncias, fortalecendo o poder imperial.  O jovem D. Pedro II é totalmente controlado pelos conservadores. Liberais se revoltam, pegam em armas e elegem um presidente local. Estoura em 1842, em Sorocaba, São Paulo, um levante militar liderado por  Rafael Tobias de Aguiar e pelo ex -regente e senador Diogo Feijó. Ambos são presos pelas forças de Caxias. Feijó é exilado no Espírito Santo. Surge um novo debate se eles merecem ou não a anistia. Os moderados conservadores defendem que a anistia pode pacificar o Brasil. Dois anos depois da tentativa de golpe todos são anistiados e isto inicia uma tradição no país. Pedro II governa o Império Brasileiro até que é derrubado por um novo golpe de Estado militar. Desta vez, vitorioso e sem nenhum líder preso, chegam ao poder na República dos Estados Unidos do Brasil. 

* Prof. Heródoto Barbeiro, âncora do Jornal Nova Brasil, colunista do R7, apresentou o Roda Viva na TV Cultura, Jornal da CBN e Podcast NEH. Tem livros nas áreas de Jornalismo e História. Mídia Training e Budismo. Grande prêmio Ayrton Senna, Líbero Badaró, Unesco, APCA, Comunique-se. Mestre em História pela USP e inscrito na OAB. Palestras e mídia training. Canal no Youtube “Por Dentro da Máquina”, www.herodoto.com.br