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Humor

“O medo de ser cancelado está deixando as histórias mais rasas”, afirma Cris Wersom

Em entrevista a Fernando Vítolo no programa New Rádio, humorista fala sobre a importância do riso para a saúde mental, o encontro com o papa Francisco e sua decisão de levar o humor para dentro das empresas

Cris Wersom está preocupada com o que anda acontecendo com o humor. Para a atriz, roteirista e comediante, o receio de provocar discussões ou desagradar determinados grupos tem levado artistas a evitar assuntos que deveriam ser debatidos. O resultado, segundo ela, aparece nas histórias que chegam ao público.

“Com o medo de ser cancelado, você não fala no assunto. E aí a gente tá deixando as histórias mais rasas”, afirmou durante entrevista a Fernando Vítolo no podcast New Rádio.

A humorista acredita que a dificuldade de lidar com temas desconfortáveis tem relação com a maneira como as pessoas passaram a consumir informações e reagir às opiniões alheias. Há pouco espaço para refletir, ouvir o outro ou reconhecer as próprias contradições. Uma piada que poderia provocar uma discussão acaba sendo recebida apenas como uma ofensa.

“Eu acho que nada é sagrado e logo tudo é sagrado. Então você pode rir de tudo, mas eu acho que falta profundidade na nossa sociedade hoje”, disse.

Isso não significa, porém, que Wersom defenda o humor sem responsabilidade. Pelo contrário. Ela considera que existe uma diferença importante entre ser uma pessoa engraçada e trabalhar profissionalmente com comédia.

“O humorista é um profissional, ele tem responsabilidade em cima da coisa. Ele estuda sobre, ele seleciona o que ele vai falar. Ele tem uma função social”, explicou.

Para a atriz, talento e espontaneidade ajudam, mas não substituem o estudo. Ela critica a ideia de que basta subir ao palco e dizer qualquer coisa para exercer a profissão. Um comediante precisa conhecer os assuntos que aborda, compreender o efeito de suas escolhas e continuar aprendendo mesmo depois de conquistar reconhecimento.

O problema não é discutir racismo, mas deixar de discutir

Um dos momentos mais intensos da entrevista aconteceu quando Fernando Vítolo questionou os limites da representação artística. O apresentador citou situações envolvendo atores que interpretam personagens com características diferentes das suas, discussões sobre apropriação cultural e exemplos de produções antigas, como o Castelo Rá-Tim-Bum, que hoje poderiam receber críticas por determinadas escolhas de caracterização.

Cris reconheceu a importância dessas discussões e defendeu a ampliação da diversidade no audiovisual. Lembrou que, durante muito tempo, pessoas negras tiveram pouco espaço nas telas brasileiras, apesar de representarem uma parcela expressiva da população.

Também afirmou ser contrária ao uso de blackface, prática historicamente utilizada para ridicularizar e depreciar pessoas negras.

Sua preocupação está na maneira como esses debates são conduzidos. Segundo a comediante, quando o medo de críticas impede artistas de abordar o racismo, a discriminação ou outros conflitos sociais, a própria discussão perde espaço.

Na avaliação dela, personagens racistas, por exemplo, precisam aparecer como racistas quando a história exige isso. Suavizar comportamentos para evitar reações negativas pode enfraquecer uma obra que justamente pretende denunciar determinada realidade.

“Existe uma infantilização das discussões”, criticou.

A artista também questionou o hábito de tratar opiniões divergentes como motivo para ataques pessoais. Para ela, falta disposição para pesquisar, conversar e, principalmente, mudar de ideia.

“Eu mudo de opinião muito e faço isso cada vez mais. Isso é incrível, assim, eu não tenho certeza mais de nada e eu acho isso muito legal”, afirmou.

Por que estamos rindo menos?

A conversa sobre cancelamento levou a uma questão que Wersom vem estudando: a dificuldade que as pessoas demonstram para rir, inclusive de situações cotidianas.

Fernando comentou que sempre teve facilidade para encontrar graça nas coisas mais simples, comportamento que associa ao humor da infância. Mas percebe que, em determinados ambientes, uma risada espontânea passou a despertar estranhamento.

Cris relacionou essa mudança ao excesso de cobranças, ao uso constante de celulares e à diminuição dos encontros presenciais.

Segundo ela, as pessoas estão ocupadas tentando cumprir metas profissionais, financeiras e pessoais. Precisam trabalhar, cuidar da saúde, frequentar a academia, investir dinheiro e acompanhar uma quantidade cada vez maior de informações. Quase não sobra tempo para conversar sem compromisso.

“Eu nunca ouvi as pessoas falarem tanto do ‘cadê o seu primeiro milhão?’”, comentou.

A comediante considera que essa preocupação permanente com resultados compromete o espaço reservado à diversão. Na sua percepção, até reuniões familiares e encontros entre amigos acabam prejudicados pelo uso dos celulares, que disputam a atenção com quem está fisicamente presente.

O humor, argumenta, depende dessa convivência.

Wersom também fez uma distinção entre rir e simplesmente consumir conteúdos engraçados. Assistir a vídeos sozinho não oferece necessariamente a mesma experiência de compartilhar uma gargalhada com outras pessoas.

Para ela, o riso tem uma dimensão coletiva. Uma pessoa começa a rir, outra acompanha e, quando se percebe, todos estão envolvidos naquela situação.

Do Vaticano às empresas: o humor como ferramenta de convivência

Em 2024, Cris Wersom esteve no Vaticano para um encontro promovido pelo papa Francisco com humoristas de diversos países. Entre os brasileiros convidados estavam também Fábio Porchat e Cacau Protásio.

A experiência marcou a artista, que já vinha refletindo sobre a responsabilidade social da comédia.

Durante a entrevista, ela contou que Francisco demonstrou interesse em compreender como os humoristas utilizavam o próprio trabalho para contribuir com a sociedade.

Para Cris, aquele encontro reforçou uma inquietação que passou a orientar parte de suas atividades: de que maneira o teatro e a comédia poderiam ajudar pessoas que vivem sob pressão constante?

A resposta começou a ganhar forma em projetos voltados ao ambiente empresarial.

Antes de se dedicar integralmente à arte, Wersom trabalhou como funcionária contratada pelo regime CLT. Conhece, portanto, a rotina das empresas. Depois de anos atuando como atriz, roteirista e professora, decidiu voltar a esse ambiente, agora levando técnicas do teatro e do humor.

A iniciativa começou com um espetáculo sobre saúde mental no trabalho, desenvolvido em parceria com um profissional chamado Paulo, e deu origem a treinamentos e atividades em grupo.

A proposta é estimular a convivência, a espontaneidade e a capacidade de lidar com erros sem transformar cada falha em um problema insuperável.

“Não sei se dá para ensinar a pessoa a dar risada, mas dá para ensinar a pessoa a se levar menos a sério”, afirmou.

Na opinião da atriz, ambientes marcados por medo, desconfiança e cobranças excessivas dificultam a expressão emocional. Quando o profissional teme constantemente ser julgado ou punido, perde a liberdade de experimentar e de se mostrar vulnerável.

Ela própria contou que já enfrentou um burnout, mesmo trabalhando com algo que ama.

“Eu mesma tive burnout, mesmo fazendo muito o que amo, porque você perde a noção”, relatou.

Para Wersom, gostar do trabalho não impede que uma pessoa adoeça. Por isso, considera importante que as empresas reconheçam a necessidade de descanso, convivência e momentos em que os funcionários possam se expressar sem a obrigação de apresentar resultados.

A mulher ainda precisa provar que é engraçada?

Outro assunto abordado por Fernando foi o espaço ocupado pelas mulheres na comédia brasileira. O apresentador mencionou uma entrevista anterior com Fafy Siqueira, que havia relatado dificuldades enfrentadas por ser mulher em uma profissão historicamente dominada por homens.

Wersom reconheceu que o preconceito ainda existe, embora sua experiência tenha sido diferente em alguns aspectos. Como começou trabalhando em um grupo formado por mulheres, encontrou apoio entre as colegas e teve mais segurança para experimentar no palco.

Ainda assim, acredita que a sociedade continua associando as mulheres a determinadas expectativas de beleza, feminilidade e comportamento.

Essas cobranças também interferem no humor.

Segundo ela, uma piada construída a partir de experiências femininas pode encontrar resistência simplesmente porque parte da plateia desconhece aquela realidade. Em alguns casos, a própria comediante acaba adaptando seu comportamento ou adotando uma linguagem mais masculina para conseguir aceitação.

Cris citou a experiência da roteirista e atriz norte-americana Tina Fey, que enfrentou dificuldades para fazer colegas homens compreenderem determinadas ideias de comédia baseadas no universo feminino.

Para Wersom, quanto maior a diversidade entre quem escreve, interpreta e toma decisões sobre uma produção, maiores são as possibilidades de apresentar perspectivas diferentes ao público.

“O sucesso é ter saúde mental”

A entrevista também passou pela relação entre fama, fracasso e realização profissional.

Fernando contou que certa vez entrevistou Antônio Fagundes e, entusiasmado, compartilhou a novidade com os sobrinhos. A reação foi inesperada: eles não sabiam quem era o ator.

A história serviu para discutir a rapidez com que a fama pode perder importância de uma geração para outra.

Cris, que já experimentou momentos de maior exposição pública e também precisou trabalhar fora da carreira artística, afirmou que não considera a popularidade um parâmetro confiável para avaliar o próprio trabalho.

Segundo ela, o fracasso faz parte da vida de qualquer artista. Muitas vezes, é justamente uma situação constrangedora, uma tentativa frustrada ou uma experiência dolorosa que dá origem a uma boa piada.

Sua preocupação é com profissionais que passam a depender do reconhecimento público para se sentirem realizados.

“Hoje em dia, inclusive, sucesso é ter saúde mental”, afirmou.

A comediante também considera perigoso quando o artista perde a capacidade de rir de si mesmo. Para ela, o humor exige certa disposição para parecer ridículo, reconhecer os próprios erros e aceitar que nem tudo merece a importância que costumamos atribuir.

Na parte final da conversa, Fernando perguntou o que ainda consegue fazer rir uma pessoa que passou tantos anos provocando gargalhadas nos outros.

A resposta veio sem hesitação: o patético, o fracasso, o comportamento espontâneo e, principalmente, as pessoas que não se levam tão a sério.

Wersom contou que continua rindo com facilidade, inclusive durante gravações, quando às vezes tem dificuldade para terminar uma cena sem cair na gargalhada.