Microfone Imaginário

Bonde: Este velho injustiçado

Quando São Paulo ganhou rosto de gente grande, foi necessário implantar o transporte coletivo e vieram os bondes puxados por tração animal.

No começo o povo não cabia em si de felicidade, o sistema de tração animal foi inaugurado pela Companhia Carris de Ferro, em 12 de outubro de 1872.

A primeira linha sobre trilhos ligava o centro com a antiga Estação da Luz, mas o sofrimento dos animais que realizavam esse serviço passou a visível.

As exaustivas jornadas e as ladeiras íngremes faziam com que as mulas ou burros caíssem de cansaço, outras vezes escorregavam e sofriam fraturas.

A experiência mostrou que a tração animal trazia ainda outros inconvenientes, a cidade ficou malcheirosa, não precisamos explicar os motivos.

Jornais da época noticiavam o atraso da prefeitura na retirada da sujeira dos burros e foi assim até a chegada dos bondes elétricos, em 7 de maio de 1900.

A população comemorou novamente, só que de novo surgiram problemas, as ruas do centro eram estreitas e os bondes largos demais atropelavam pessoas.

Quando chegava, os pedestres tinham que sair do meio das ruas, por outro lado o transporte era limpo, eficiente e a eletricidade vista como um milagre.

O tempo passou e o bonde, antes herói, começou a virar trambolho; os ônibus mais velozes se tornaram os preferidos, mesmo poluindo a atmosfera.

O convívio difícil dos ônibus com os bondes continuou durante quatro décadas, as acusações de serem lentos e superados foram ganhando força.

As crianças preferiam o bonde. Mais exóticos, balançavam sobre os trilhos e os profissionais da área, chamados de motorneiros, eram mais gentis e solícitos.

Um deles ganhou fama: Augusto Barbosa, o Bailarino, cujo apelido adquiriu nos tempos em que jogava futebol nas várzeas de Santana.

Capaz de deixar a cabine para ajudar pessoas idosas a atravessarem as ruas, costumava parar e aguardar a chegada dos passageiros atrasados.

Contavam os antigos que certa vez um caminhão quebrado sobre os trilhos levou estudantes a pedir para descer, comprar sorvetes e retornar ao bonde.

O Bailarino deixou, só que um fiscal assistiu a cena e quis demitir o motorneiro, mas a população pediu sua volta. Ao se aposentar virou entregador de jornais.

Em 28 de outubro de 1984, a Gazeta da Norte noticiou: “Morreu Augusto Barbosa, o motorneiro Bailarino, amigo dos idosos e das crianças”.

Nos áureos tempos do bonde, São Paulo chegou a ter 60 linhas desse transporte, depois veio a decadência e a despedida definitiva se deu em 1968.

Mais recentemente, antigos trilhos da rede de bondes cobertos pelos calçadões voltaram a ser vistos nas ruas do centro e transformados em atrativos.

A prefeitura planeja integrar esses achados a um projeto de resgate da memória afetiva. Quem sabe assim novas gerações valorizem o bonde.

Tal iniciativa pode dar início a um processo de reconhecimento do bonde que é mais um, entre tantos velhos rejeitados, nestes velozes tempos modernos.

Geraldo Nunes é jornalista profissional, escritor e radialista premiado. Na saudosa Rádio Eldorado, além de repórter aéreo, apresentou o programa São Paulo de Todos os Tempos, onde se fez cronista da cidade, premiado pela APCA e com o Colar Guilherme de Almeida. Da Câmara Municipal recebeu a Medalha Anchieta e o Diploma de Gratidão da Cidade de São Paulo. Integra a Academia Paulista de História, Academia Cristã de Letras e o Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, é membro honorário da Força Aérea Brasileira – FAB.