Em menina, acompanhava minha mãe quando, em viagem à cidade dela, visitava sua professora.
Lembro-me até do nome: dona Alzira.
Com minha mãe, aprendi a respeitar professoras e professores. E a aceitar as broncas, quase todas merecidas, sem levá-las para casa como grandes injustiças. As imerecidas aconteciam por eu estar em um grupo que fazia bagunça, não por ter sido eu a causadora.
Professoras eram valorizadas. Eram verdadeiros modelos.
Uma das minhas brincadeiras era de professora. Escrevia com um toco de giz na porta.
Anos depois, trabalhei como professora e diretora de escola, numa pequena cidade no Norte do país.
Procurei dona Ana, minha professora do pré-primário, e minha tia. Uma era diretora de escola; a outra, tinha sido.
Fui pedir orientação.
Talvez isso diga alguma coisa sobre o lugar que os professores ocupavam na minha formação. Quando precisei aprender uma função que nunca havia imaginado exercer, procurei minhas professoras.
Hoje, alguma coisa mudou.
Professores perderam prestígio. Com isso, a escola perdeu valor.
E não perdemos apenas um lugar de transmissão de conhecimentos. A escola é também espaço de convivência. Crianças e jovens encontram ali pessoas diferentes, aprendem a compartilhar, a ouvir, a esperar, a respeitar regras e a lidar com diferenças.
É também um lugar de construção de saber. O conhecimento não nasce pronto na tela do celular.
Há professores que estudam, preparam aulas, corrigem trabalhos, acompanham alunos e precisam se atualizar continuamente.
A docência exige formação, dedicação e trabalho. Merece condições adequadas e salários correspondentes à responsabilidade que carrega.
Talvez seja preciso recuperar também uma relação que parece ter se perdido: a de reconhecer que não sabemos tudo e que podemos aprender com quem estudou para ensinar.
Dona Alzira e dona Ana fazem parte dessa minha memória.
Quando precisei aprender, fui beber na fonte.
Ainda me lembro delas.
Vera Lucia Vaccari é psicóloga, psicoterapeuta, mestre em Saúde Pública, professora, tradutora e escritora. Há mais de cinco décadas escuta histórias e escreve sobre o que o tempo faz com as pessoas, os vínculos e a vida cotidiana.









