CEO da HSM, Singularity Brazil e Learning Village afirma que algumas funções poderão, sim, ser substituídas pela IA, e aponta coragem, capacidade de decisão e educação tecnológica como fatores decisivos para o futuro profissional
A inteligência artificial vai acabar com o seu emprego? Para Glaucia Guarcello, PhD, CEO da HSM, Singularity Brazil e Learning Village, não existe uma resposta simples. “Depende do emprego. Depende do que você faz.”
Convidada do Conexão Protagonistas, Glaucia falou sobre os impactos da inteligência artificial no mercado de trabalho e questionou uma das frases mais repetidas desde a popularização dessas ferramentas: a de que a IA não vai tirar o emprego de ninguém, mas uma pessoa que saiba utilizá-la pode tirar.
Na avaliação dela, a mudança é mais profunda. A inteligência artificial não está apenas acelerando tarefas que já existiam. Em muitos casos, está criando uma forma completamente diferente de realizar determinadas atividades. E, quando uma tecnologia consegue fazer melhor uma tarefa para a qual foi especialmente desenvolvida, é natural que algumas funções deixem de existir ou sejam profundamente modificadas.
Por isso, talvez a pergunta mais importante para quem está no mercado de trabalho não seja simplesmente se a IA vai acabar com empregos. A questão é entender o que cada profissional consegue fazer melhor, ou de forma diferente, daquilo que a tecnologia já consegue entregar.
Mais informação não significa melhores decisões
Um dos pontos mais interessantes da conversa aparece quando Glaucia fala sobre um efeito curioso provocado pela inteligência artificial. Nunca tivemos acesso tão rápido a dados, análises, projeções e simulações. Hoje, uma ferramenta consegue processar em minutos informações que antes exigiriam horas ou até dias de trabalho.
Seria natural imaginar que isso faria as pessoas decidirem mais rapidamente. Segundo Glaucia, em algumas empresas acontece exatamente o contrário. Executivos começam a adiar decisões porque sempre existe a possibilidade de pedir mais uma análise, testar mais um cenário ou gerar mais uma projeção antes de escolher um caminho.
O problema é que nenhuma ferramenta consegue eliminar a incerteza. A inteligência artificial trabalha com informações disponíveis, identifica padrões e pode ajudar a imaginar cenários, mas não conhece o futuro.
Nesse ambiente, o excesso de análise pode virar uma espécie de esconderijo. A pessoa acredita que, se continuar procurando, em algum momento aparecerá uma resposta completamente segura. Só que muitas decisões precisam ser tomadas antes disso.
Esperar também tem um preço. Uma empresa pode perder uma oportunidade, chegar depois do concorrente ou adiar o lançamento de um produto enquanto tenta eliminar uma incerteza que talvez nunca desapareça.
“Agora vamos premiar os corajosos”
É a partir dessa discussão que Glaucia apresenta uma ideia importante para entender o profissional que pode ganhar espaço nos próximos anos. Durante muito tempo, segundo ela, o mercado valorizou principalmente o QI e a capacidade de resolver problemas. Agora, outra característica tende a se tornar cada vez mais importante: a coragem.
Ela chama essa capacidade de “coragem epistemológica”. Em termos simples, significa conseguir agir mesmo sem ter todas as informações e sem saber exatamente qual será o resultado.
Durante a entrevista, Glaucia resume a ideia de uma maneira bastante direta: “Eu tenho que botar o pé sem ter o chão.”
Isso não significa decidir de forma irresponsável ou ignorar dados. Significa reconhecer que, em determinadas situações, não haverá informação suficiente para garantir uma escolha. Alguém terá que avaliar o contexto, assumir o risco e decidir.
Quanto mais as máquinas conseguem analisar grandes volumes de dados, encontrar padrões e apresentar alternativas, mais valor pode ganhar essa capacidade humana de tomar decisões quando ainda existe dúvida.
A inteligência artificial pode sugerir caminhos. Alguém continua precisando escolher qual deles seguir.
O problema de tentar transformar o futuro em meta
A conversa também passa por outro conceito trabalhado por Glaucia: a ideia de pensar em futuros, no plural.
Na Singularity, explica ela, o futurismo não parte do princípio de que existe um único futuro esperando para ser descoberto. Existem diferentes possibilidades, que mudam conforme novas tecnologias, comportamentos, decisões políticas, movimentos econômicos e acontecimentos inesperados entram em cena.
Só que empresas e profissionais foram treinados durante décadas a pensar o futuro como uma meta. Crescer determinado percentual, conquistar determinada posição, atingir determinado faturamento ou chegar a um ponto específico em alguns anos.
Esse modelo funciona melhor quando existe algum grau de previsibilidade. O problema é que essa previsibilidade ficou menor.
Tecnologias exponenciais, mudanças geopolíticas, transformações econômicas e novos modelos de trabalho alteram rapidamente as condições do jogo. Assim, talvez seja menos importante tentar descobrir exatamente como será o futuro e mais importante aprender a tomar boas decisões diante de vários futuros possíveis.
A inteligência artificial também pode aumentar a desigualdade
A transformação provocada pela IA não acontece apenas dentro das empresas. Glaucia chama atenção para um problema social: a tecnologia pode reproduzir e até ampliar no ambiente digital desigualdades que já existem fora dele.
Enquanto algumas crianças crescem cercadas de computadores, ferramentas digitais e inteligência artificial, outras ainda têm dificuldade de acesso à própria tecnologia e a uma formação que permita utilizá-la.
Essa diferença tende a aparecer mais tarde no mercado de trabalho.
Por isso, Glaucia defende que o letramento em inteligência artificial não seja tratado apenas como assunto para executivos, profissionais de tecnologia ou pessoas que já ocupam posições privilegiadas. Na visão dela, esse conhecimento precisa chegar à educação básica.
Durante a entrevista, ela faz um apelo para que crianças e jovens brasileiros tenham contato com o tema desde cedo. A preocupação é bastante concreta: se saber interagir com sistemas de inteligência artificial passar a fazer parte das competências básicas exigidas pelo mercado, começar muitos anos depois pode criar uma diferença difícil de recuperar.
Tecnologia também exige responsabilidade
Outro ponto abordado por Glaucia é a velocidade da transformação tecnológica.
Historicamente, novas tecnologias costumam surgir primeiro, ganhar escala e só depois chamar a atenção de governos, legisladores e da sociedade para a necessidade de estabelecer regras. Com a inteligência artificial, ela acredita que esse intervalo merece atenção.
Mesmo atuando em um ambiente de tecnologia, onde muitas vezes existe resistência à regulamentação excessiva, Glaucia defende algum nível de regulação. A preocupação está principalmente na velocidade com que ferramentas de IA podem ganhar escala e afetar empresas, profissões e mercados inteiros.
Tecnologias podem evoluir muito rapidamente. Instituições, leis, escolas e comportamentos humanos não mudam na mesma velocidade.
Esse descompasso cria um problema que vai além das empresas. A discussão sobre inteligência artificial envolve produtividade e inovação, mas também educação, emprego, responsabilidade e os limites que a sociedade pretende estabelecer para o uso dessas ferramentas.
E onde fica o ser humano?
Apesar de todos esses alertas, a conversa não apresenta a inteligência artificial apenas como ameaça. Para Glaucia, parte do desafio está justamente em descobrir o que vale a pena entregar às máquinas e o que queremos preservar como parte do trabalho humano.
Isso exige ir além da pergunta mais comum feita hoje pelas empresas: “Como posso usar inteligência artificial para fazer mais rápido aquilo que já faço?”
Talvez seja preciso questionar o próprio trabalho. Quais atividades realmente fazem sentido automatizar? Onde a tecnologia consegue entregar um resultado melhor? O que ainda depende de contexto, julgamento, responsabilidade e decisão humana? E quais capacidades precisam ser desenvolvidas agora para um mercado que está mudando enquanto tentamos entendê-lo?
Não existem respostas definitivas para essas perguntas. E talvez esse seja justamente o ponto central da conversa com Glaucia Guarcello.
Num cenário em que a inteligência artificial consegue produzir cada vez mais respostas, pode ganhar vantagem quem souber fazer boas perguntas, avaliar os caminhos possíveis e, em algum momento, tomar uma decisão mesmo sem a segurança de saber exatamente o que acontecerá depois.










