Leão XIV diz que algoritmos não têm a “centelha do humano” e pode provocar um fenômeno inesperado: artista ateu começando a simpatizar com o Vaticano
Talvez ninguém tivesse imaginado que a próxima grande esperança dos artistas contra a inteligência artificial viria do Vaticano.
Mas veio.
O papa Leão XIV entrou na discussão sobre IA e criação artística ao receber artistas e curadores no Vaticano, no último dia 2 de outubro. Ao falar sobre a necessidade de diferenciar aquilo que é produzido por seres humanos do que é produzido pelas máquinas, foi bastante direto: existe, segundo ele, uma diferença que vai além da estética entre uma obra criada por uma pessoa e aquilo que um algoritmo consegue gerar combinando estatisticamente milhões de trabalhos produzidos por terceiros.
E soltou uma frase que provavelmente vai parar em camiseta, ecobag e bio de Instagram de muito artista:
“Aos algoritmos falta a centelha do humano.”
Pronto.
É possível que, neste momento, ilustradores, músicos, escritores, atores, fotógrafos e designers que não entram numa igreja desde o batizado estejam procurando no Google o horário da missa de domingo.
Calma. Talvez não seja para tanto.
Mas é curioso observar o Vaticano entrando numa discussão que Hollywood, gravadoras, editoras, sindicatos, plataformas digitais, empresas de tecnologia e milhares de profissionais criativos vêm travando há algum tempo.
Leão XIV não pediu que alguém jogasse o ChatGPT pela janela nem decretou excomunhão para quem usa inteligência artificial. O que fez foi estabelecer uma fronteira.
Para o Papa, máquina pode produzir imagem. Pode combinar referências. Pode calcular. Pode gerar. Mas existe algo na criação artística humana que não estaria no algoritmo.
A tal centelha.
A declaração provavelmente terá enorme simpatia justamente entre profissionais que vêm perguntando onde termina a ferramenta e onde começa a substituição do artista.
Há uma ironia maravilhosa nisso tudo.
Durante séculos, artistas discutiram com a Igreja sobre liberdade, censura, moral, comportamento, nudez e praticamente tudo o que um artista consegue transformar em discussão. Agora talvez surja um novo movimento artístico:
Ateus com Leão XIV contra o Midjourney.
Não chega a ser conversão religiosa. Mas, dependendo de quantos jobs a inteligência artificial continuar levando, não seria surpresa aparecer alguém fazendo o sinal da cruz antes de abrir o Photoshop.
O Papa, pelo menos nessa batalha, acaba de descobrir que pode ter conquistado uma legião bastante improvável de fiéis.
Ou, no mínimo, de seguidores.
Fernando Vítolo é comunicador, escritor e entrevistador. Há mais de uma década trabalha contando histórias, conectando pessoas e produzindo conteúdo multiplataforma. @fernando.vitolo










