Parece Mas Não É

Parem as roletas!

O presidente da República proíbe os jogos de azar no Brasil. Mais uma vez surge um tema que coloca o presidente de um lado e parte do empresariado de outro. Estes alegam que investem muito dinheiro nos jogos, que não há segurança jurídica e que as pessoas vão passar a jogar em cassinos ilegais. Citam com frequência o velho jogo de bicho, forma que resistiu por muitas décadas, apesar da repressão policial. Alimenta o crime organizado, times de futebol e escolas de samba. As casas de apostas clandestinas todos sabem onde se encontram, mas a policia não tem o mapa da cidade e não consegue prender os bicheiros. A não ser quando há um escândalo ou o tema passa a fazer parte da campanha para a presidência da República. Os “marqueteiros” do governo avaliam que tipo de impacto uma proibição dos jogos de azar pode provocar tanto na campanha política como na imagem do Executivo frente à população.

Os defensores do banimento dos jogos não se lembram que loterias, como a Loteria Federal, também são jogos de azar. Ah, mas aí é para uma boa causa – destinar parte dos recursos para obras sociais que ninguém vê! Só que a própria Caixa Econômica Federal não se sente confortável para divulgar quanto arrecada e quanto o ganhador leva se tiver o bilhete premiado. O presidente do Brasil é pressionado pelos que entendem que o jogo é uma questão social, uma vez que quem mais desvia dinheiro do orçamento doméstico para as apostas é a classe social dos pobres. Estes costumam dormir e sonhar que no dia seguinte acordarão milionários. Monta-se no Brasil um verdadeiro ralo que absorve a renda dos mais pobres e é responsável por uma parte da miséria que assola o país. Tem que parar, custe o que custar, dependa ou não de apoio do Congresso Nacional. Em tempo: o lobby lá é intenso, rico, e suas excelências são fotografadas em festas regadas a champagne, whisky, charutos cubanos e… hã… modelos.

A religião está contra os jogos no Brasil. A Igreja Católica faz pressão pela supressão dos cassinos instalados em instâncias turísticas. Os mais famosos estão na capital da República. O vencedor da eleição presidencial não se posicionou sobre o assunto. Ficou na moita. Isso é pauta da oposição. Para surpresa geral, depois de três meses no cargo, o presidente Eurico Gaspar Dutra assina um decreto que proíbe os cassinos e jogos de azar. O ano de 1946 é o marco do fim dos jogos no Brasil. A gritaria é geral de empresários, governadores e prefeitos. Alguns alegam que sempre cumpriram a lei, recolhem impostos, atraem turistas estrangeiros no Brasil, verdadeiros mecenas das artes e de espetáculos com artistas tupiniquins e internacionais. Políticos gritam que seus estados e suas prefeituras perderão arrecadação e, por isso, vai piorar ainda mais a precária prestação de serviços à população. Nos bastidores, dizem os jornalistas, a influência decisiva para acabar com a jogatina foi da primeira-dama, Dona Santinha. Resta apenas ouvir o tango cantado por Nelson Gonçalves: Vermelho 27!!!

* Prof. Heródoto Barbeiro âncora do Jornal Nova Brasil, colunista do R7, apresentou o Roda Viva na TV Cultura, Jornal da CBN e Podcast NEH. Tem livros nas áreas de Jornalismo, História. Midia Training e Budismo. Grande prêmio Ayrton Senna, Líbero Badaró, Unesco, APCA, Comunique-se. Mestre em História pela USP e inscrito na OAB. Palestras e mídia training. Canal no Youtube “Por Dentro da Máquina”, www.herodoto.com.br