Em entrevista a David Wilson, no podcast da Veredas Treinamento, Roberto Tranjan questiona os modelos tradicionais de gestão, discute por que tantas pessoas adoecem no ambiente corporativo e explica como encontrar sentido no trabalho pode transformar também a vida pessoal.
Uma empresa pode investir em ambulatórios, oferecer assistência médica aos funcionários e, ainda assim, manter um ambiente que favorece o adoecimento. Foi justamente essa contradição que Roberto Tranjan encontrou ao visitar uma organização em Guarulhos. O diretor, orgulhoso da estrutura de atendimento que havia criado, apresentou os ambulatórios como uma importante conquista para seus colaboradores. Tranjan, entretanto, provocou o executivo com uma pergunta inesperada: por que construir uma empresa preparada para tratar pessoas doentes em vez de criar um ambiente onde elas possam viver melhor?
A história foi compartilhada durante uma entrevista concedida ao médico David Wilson, no podcast da Veredas Treinamento. Reconhecido por seu trabalho voltado à humanização das empresas, Tranjan conversou sobre os efeitos das relações profissionais na saúde, a importância do propósito e a necessidade de rever modelos de gestão que continuam tratando as pessoas principalmente como recursos produtivos. O encontro também teve um componente pessoal. David foi aluno de Tranjan e acompanha seu trabalho há anos, o que permitiu uma conversa que transitou entre experiências corporativas, medicina, comportamento humano e reflexões sobre o próprio significado do trabalho.
Para Tranjan, existe uma questão fundamental que precisa ser considerada quando uma empresa decide investir em humanização: qual é a verdadeira intenção por trás dessa iniciativa? Melhorar a produtividade, reduzir afastamentos e aumentar os lucros são objetivos legítimos de qualquer negócio, mas transformar o cuidado com as pessoas em mais uma ferramenta para alcançar indicadores financeiros pode comprometer o próprio conceito de humanização. Na avaliação do especialista, o ser humano merece ser cuidado independentemente dos resultados que isso possa proporcionar à organização. Ele acredita que um ambiente saudável naturalmente favorece o comprometimento e a produtividade, embora esses benefícios devam ser consequências de uma gestão humanizada.
A discussão ganha relevância diante de uma realidade conhecida por gestores e profissionais de recursos humanos. Em muitas organizações, a pressão por resultados ocupa tanto espaço que pouco se discute sobre o significado do trabalho para quem precisa realizá-lo diariamente. Tranjan defende que as empresas sejam compreendidas como comunidades de trabalho, formadas por pessoas que dedicam parte significativa de suas vidas à construção de um projeto coletivo. Nesse contexto, respeito, valores e qualidade das relações precisam fazer parte da experiência profissional. Afinal, o ambiente corporativo também deveria ser um lugar para o qual as pessoas tenham vontade de voltar depois do fim de semana.
Quando a transformação começa pela liderança
Um dos assuntos centrais da conversa foi a metanoia, conceito que dá nome ao trabalho desenvolvido por Tranjan e que está associado a uma transformação profunda da maneira de perceber e interpretar a realidade. David questionou se essa mudança acontece em um momento específico ou se representa um processo permanente de desenvolvimento pessoal. Para o entrevistado, as duas situações fazem parte da mesma experiência. A transformação é construída continuamente, por meio de reflexões e aprendizados, mas pode produzir mudanças repentinas de percepção. É aquele instante em que uma pessoa passa a enxergar algo que esteve diante dela durante muito tempo, mas que até então não conseguia perceber.
Essa mudança de perspectiva tem consequências importantes para a liderança. Tranjan costuma provocar empresários afirmando que as crises internas de quem administra uma organização podem ser mais prejudiciais do que os problemas econômicos enfrentados pelo negócio. Ele reconhece que inflação, juros, recessões e outras condições externas afetam concretamente as empresas. Entretanto, argumenta que crenças ultrapassadas, preconceitos e modelos mentais rígidos podem impedir que os gestores encontrem alternativas mesmo quando elas estão disponíveis. Em sua abordagem, transformar uma organização exige que seus líderes estejam dispostos a rever a própria maneira de pensar.
A trajetória profissional de Tranjan ajuda a compreender como essa visão foi construída. Formado em economia, com pós-graduação em finanças pela Fundação Getulio Vargas, ele começou a carreira como office boy em uma instituição financeira. Foram aproximadamente 14 anos trabalhando como empregado, período em que observou diferentes estilos de liderança, relações profissionais e processos de tomada de decisão. Depois, dedicou outros 14 anos à consultoria empresarial e mais 14 à educação de empresários e líderes. Essa última transição ocorreu quando percebeu que reunir profissionais para compartilhar experiências e confrontar diferentes perspectivas poderia produzir transformações mais profundas do que atuar individualmente dentro das organizações.
Sua aproximação com a humanização empresarial aconteceu justamente a partir dessas experiências. Apesar da formação financeira, Tranjan percebeu que muitos problemas corporativos estavam relacionados à maneira como as pessoas eram tratadas e à qualidade das relações estabelecidas no ambiente profissional. Essa inquietação o levou a escrever seu primeiro livro, Empresa de Corpo, Mente e Alma, em uma época em que associar a palavra alma ao universo corporativo ainda causava estranhamento. A proposta já apontava para uma compreensão mais ampla das organizações e do papel que elas desempenham na vida das pessoas.
Trabalhar também pode ser uma forma de realização pessoal
Durante a entrevista, David levantou outra questão que costuma aparecer nas discussões sobre saúde mental: por que o trabalho é frequentemente associado a sofrimento, obrigação e castigo? A conversa passou pela origem da palavra e pelas diferentes interpretações que a atividade profissional pode assumir. Para Tranjan, o trabalho pode representar sustento, sobrevivência ou solução para necessidades imediatas, mas existe uma dimensão ainda mais importante, relacionada à possibilidade de desenvolver talentos e transformar potencialidades em contribuições concretas para a sociedade.
“Aquilo que está na forma de potencialidade se transforma em realidade”, afirmou. Na visão do especialista, descobrir capacidades que antes pareciam desconhecidas e utilizá-las em benefício de outras pessoas constitui uma das experiências mais significativas da vida profissional. Ele também destaca a importância de participar de um projeto maior, percebendo como as atividades individuais contribuem para a realização de uma obra coletiva. É nesse ponto que diferencia dois conceitos frequentemente tratados como equivalentes: bem-estar e bem viver.
O bem-estar está relacionado às condições necessárias para uma vida confortável, incluindo remuneração, segurança e outras necessidades materiais. O bem viver, na concepção apresentada por Tranjan, envolve uma dimensão mais ampla, que considera propósito, realização pessoal, valores e a qualidade da própria existência. Embora reconheça a importância do dinheiro e das recompensas profissionais, ele argumenta que esses elementos, isoladamente, não são suficientes para proporcionar uma vida satisfatória.
A reflexão levou David a uma preocupação importante. Se o trabalho se tornar uma fonte tão intensa de realização pessoal, existe o risco de o profissional negligenciar a família, os amigos e outras atividades? Tranjan reconheceu essa possibilidade e explicou que a humanização precisa considerar todas as dimensões da vida. Ele utiliza o conceito de holograma humano para representar essa integração, na qual o trabalho constitui apenas uma das partes. As experiências profissionais devem contribuir para enriquecer as relações familiares, sociais e pessoais, sem ocupar todos os espaços disponíveis.
A discussão também abordou o burnout e o comportamento de pessoas que trabalham compulsivamente. Tranjan diferencia o entusiasmo proporcionado por uma atividade significativa da dedicação excessiva motivada por cobranças e pressões constantes. Em sua abordagem, encontrar sentido no trabalho pode contribuir para uma relação profissional mais saudável, mas o próprio entrevistado reconhece que é necessário estabelecer equilíbrio para evitar que a realização profissional se transforme em negligência das demais áreas da vida.
O que aprendemos na empresa levamos para casa
Uma das reflexões mais interessantes do episódio surgiu quando Tranjan relacionou a qualidade das relações profissionais à convivência familiar. Segundo ele, muitas pessoas enfrentam dificuldades para conversar, ouvir e administrar conflitos no ambiente corporativo. Esses mesmos comportamentos acabam aparecendo em casa, onde frustrações acumuladas durante o expediente podem prejudicar as relações com cônjuges, filhos e outros familiares.
O entrevistado explicou que os processos de humanização desenvolvidos em seu trabalho incluem metodologias voltadas à melhoria do diálogo e da convivência. Quando um profissional aprende a ouvir, lidar com divergências e construir relações mais respeitosas na empresa, pode incorporar essas habilidades à vida pessoal. Da mesma forma, compreender a importância de um propósito coletivo no ambiente profissional pode estimular reflexões sobre os objetivos e valores da própria família.
David compartilhou experiências semelhantes, observadas em seu trabalho, nas quais mudanças na relação subjetiva com a atividade profissional também produziram melhorias na comunicação familiar. A conversa reforçou a percepção dos entrevistados de que as diferentes dimensões da vida estão interligadas. Tranjan relacionou essa interação ao conceito de autopoiese, utilizado por ele para explicar como diferentes partes podem contribuir mutuamente para o desenvolvimento de um conjunto. Aplicado à vida cotidiana, o raciocínio sugere que mudanças positivas em uma área podem estimular transformações em outras.
Saber o que precisa ser feito é diferente de realmente fazer
Outro tema importante da entrevista foi a diferença entre adquirir conhecimento e modificar comportamentos. David trouxe para a conversa conceitos relacionados ao aprendizado cognitivo e socioemocional, destacando a influência das emoções sobre a memória, a motivação e a aprendizagem. Tranjan apresentou uma distinção que utiliza em seu trabalho: o aprendizado, associado à transformação de informações em conhecimento, e a aprendizagem, relacionada à construção de significado. Para ele, uma pessoa pode acumular informações e dominar intelectualmente determinado assunto sem que isso produza qualquer mudança concreta em suas atitudes.
Para ilustrar essa diferença, contou uma experiência que teve ao assistir a uma palestra de Peter Drucker, um dos grandes nomes da administração. Na ocasião, Tranjan estava acompanhado de outro consultor e percebeu que praticamente tudo o que o palestrante apresentava já era conhecido pelos executivos presentes. Durante o evento, Drucker lançou uma pergunta que, segundo ele, provocou a maior reação da plateia: se todos já conheciam aquelas ideias, por que não as colocavam em prática?
O episódio sintetiza uma das principais preocupações de Tranjan com a educação corporativa. A informação está cada vez mais acessível, especialmente com o avanço da inteligência artificial, mas conhecer teorias, metodologias e boas práticas não garante sua aplicação. A transformação exige que o conhecimento adquira significado para quem aprende. Nesse processo, as experiências emocionais e a disposição para rever comportamentos desempenham um papel importante. É justamente nessa passagem entre compreender e agir que Tranjan concentra boa parte de seu trabalho com líderes e empresários.
A pergunta que pode mudar nossa relação com o trabalho
Ao final da entrevista, David convidou Tranjan a deixar uma última reflexão para o público. O especialista retomou a distinção entre bem-estar e bem viver, observando que a sociedade dedica muita atenção à busca por conforto, estabilidade e segurança, mas raramente estimula as pessoas a refletirem sobre o tipo de vida que realmente desejam construir.
“Qual é o meu bem viver?”, questionou Tranjan. Para ele, essa pergunta merece espaço nas decisões profissionais e pessoais, especialmente porque envolve questões éticas, valores e escolhas que nem sempre aparecem nos indicadores utilizados para avaliar o sucesso.
A conversa entre David Wilson e Roberto Tranjan oferece uma perspectiva sobre os desafios contemporâneos da gestão de pessoas. Em um mercado que frequentemente mede o sucesso pelo desempenho financeiro, pelas metas alcançadas e pelo crescimento profissional, os entrevistados convidam empresas e trabalhadores a considerar também a qualidade das experiências construídas ao longo desse percurso. Uma reflexão que começa no ambiente corporativo, mas inevitavelmente alcança outras dimensões da vida, inclusive a maneira como cada pessoa define o próprio sucesso.










