O momento em que este texto é escrito é um momento de extrema expectativa no Brasil. Em poucos dias, teremos a eleição de nosso próximo presidente, que pode ser uma continuidade do atual, ou pode ser da oposição ao atual.
Nesses tempos, tivemos ampla oportunidade de ouvir a palavra “polarização política”, que o país está polarizado, que os dois lados são pouco redutíveis no que pensam, que a terceira via foi um projeto que naufragou… Mas o que é curioso é que isso tudo é visto como um problema, quase um defeito, não há um consenso, o país não está apaziguado…
Mas desde quando um consenso, ou uma terceira via, moderada, que compõe, é solução? De qual cabeça sonhadora partiu esse devaneio? Não temos necessidade nenhuma de consenso, apaziguamento, harmonização entre partes. O que o país necessita, e com urgência, é debate e transparência, o fim da hipocrisia política, o fim do monopólio da informação.
Reino Unido é dividido há décadas em Labourers (trabalhadores) e Conservative (Conservador), recentemente atravessaram a imensa dificuldade de se deslocar da União Europeia, tem tido revezamentos entre ambos lados e consegue seguir seu destino. Estados Unidos são cindidos entre Republicanos e Democratas, um país cindido em dois grupos que são opostos e até antagônicos um em relação ao outro, e nem por isso rumam para a destruição. Nós, que somos uma democracia extremamente jovem, precisamos nos emancipar da carochinha proclamada por vários lados, de que o país precisa estar em acordo internamente… Todo país que tem um partido único tem democracia duvidosa, a regra da democracia é ser contrariado. Se você sente que a última eleição lhe contrariou, é sinal de que você vive numa democracia. Existe uma lógica quase infantil que dita que “se você quer que eu aceite sua posição, você é fascista” e “democrático é tudo aquilo com o que estou de acordo”. Dois conceitos incompatíveis com as eleições e com o futuro do qual estamos diante.
A oposição deve se opor. Há alguns anos, víamos a frase “se fere minha existência, sou resistência”. Seja lá qual for a ferida existencial, a frase deveria terminar com “oposição” em preferência a “resistência”, apesar da perda da rima.
Portanto:
- A polarização é a ALMA da democracia, sinal de que todas as opiniões convivem;
- O consenso ou terceira via, além de impraticável, é falaciosa: o consenso é sempre uma violência para ambos lados.
- Portanto, votemos todos com convicção e… com polarização. Oxalá sejam sempre uma república com vários pontos de vista.
David Wilson é médico psiquiatra, psicoterapeuta de orientação lacaniana e diretor clínico do Instituto Veredas Treinamento. Na Younik, escreve sobre saúde mental, comportamento humano e os desafios das relações pessoais e profissionais.










