Saúde

O perigo da distribuição gratuita das canetas emagrecedoras

Em tempos de populismo, é importante tomar cuidado com diversos riscos à saúde que as canetas emagrecedoras podem causar, e porque não basta que o SUS as distribua:

Gastroparesia, pelo efeito de esvaziamento gástrico prolongado visando aumentar a saciedade. O uso indiscriminado (dose e frequência de injeções) pode desencadear uma paralisia grave, náuseas, vômitos e um mal-estar que pode acabar num pronto-atendimento.

Aspiração pulmonar. Os anestesistas recomendam três (três!) semanas de interrupção da injeção para uma anestesia segura. Motivo: o retardo do esvaziamento gástrico aumenta gravemente as chances de uma aspiração culminando numa pneumonia aspirativa, que envolve risco de morte.

Obstrução intestinal e íleo paralítico. A depender da sensibilidade individual (e essa é sempre imprevisível), a motilidade gastrointestinal como um todo (e não apenas o estômago) podem ser suprimidas, com eventual necessidade de cirurgia de emergência.

Pancreatite aguda e coledocolitíase. De um ponto de vista metabólico, a perda muito abrupta de peso por estimulação de receptor (o mecanismo das canetas), pode levar a litíase biliar, colecistite e pancreatite aguda, todos quadros graves que frequentemente exigem intervenção urgente.

Complicações endócrina, metabólicas e sistêmicas. Carcinoma de Tireoide, neoplasia endócrina múltipla do tipo 2. O uso dessas canetas sem uma adequada varredura dos antecedentes pessoais e familiares para essas formas de câncer pode incorrer em grave risco.

Haveria ainda riscos com hipoglicemia grave, perda de massa muscular, osteoporose, descompensação de transtornos alimentares (anorexia e bulimia nervosa), sem falar no retorno do peso (efeito-sanfona) na interrupção, depressão, anedonia, instabilidade do humor, especialmente nas fases de aumento ou diminuição das doses.

Acredito que o acima exposto serve como uma base para termos uma ideia do que significa o uso indiscriminado das canetas, sem o acompanhamento de uma equipe de saúde (médicos, enfermeiros, nutricionistas, psicólogos a depender do caso), então, para não incorrer em iatrogenia, o serviço de saúde que disponibiliza canetas de graça, deverá também zelar pela manutenção dessa equipe multiprofissional para que a vida humana não fique abaixo da demagogia populista.

David Wilson é médico psiquiatra, psicoterapeuta de orientação lacaniana e diretor clínico do Instituto Veredas Treinamento. Na Younik, escreve sobre saúde mental, comportamento humano e os desafios das relações pessoais e profissionais.