Tecnologia

Mark Zuckerberg ressuscitou o Tamagotchi?

O Muse Charm lembra o bichinho virtual dos anos 90. A dúvida é se estamos preparados para cuidar de outra criatura ou se ela é que precisará cuidar da gente.

Nos anos 90, uma geração recebeu uma missão aparentemente simples: manter vivo um bichinho dentro de um chaveiro. Era preciso alimentar, dar atenção e limpar a sujeira. Pelo histórico de pequenos cemitérios digitais, talvez aquele tenha sido o primeiro teste coletivo de responsabilidade em que muita gente precisou apertar o reset.

Agora, Mark Zuckerberg apresentou o Muse Charm. E a pergunta é inevitável: depois de tudo o que aconteceu com os primeiros Tamagotchis, quem autorizou a humanidade a tentar novamente?

Revelado no Meta Connect, em 23 de setembro, o aparelho cabe no bolso e permite conversar com o Muse, agente de inteligência artificial da empresa. A Meta o descreve como um dispositivo de interação por voz em tempo real e promete divulgar mais informações ainda neste ano. Ou seja: o bichinho foi apresentado, mas ainda falta conhecer melhor as condições de adoção.

A aparência de companheiro digital convida à nostalgia. Só que existe uma diferença fundamental: o Muse Charm não foi anunciado como um animalzinho que precisa comer e pode morrer de abandono. A proposta é dar acesso a uma IA que ajuda o usuário. No Tamagotchi, você cuidava do bicho. Agora, pelo visto, a indústria percebeu que seria mais prudente inverter a responsabilidade.

Convenhamos: faz sentido. Há adulto que precisa de aplicativo para lembrar de beber água. Entregar uma criatura dependente aos nossos cuidados seria uma aposta ousada. O sujeito deixa um cacto morrer, ignora o aviso de revisão do carro e passa três dias adiando o próprio banho de sol. Mas está confiante de que pode administrar outra vida porque o aparelho tem uma carinha simpática.

E aí chegamos aos filhos. Antes de comprar um companheiro eletrônico, talvez fosse interessante verificar como anda a conversa com aquele de carne e osso que mora no quarto ao lado. Imagina a cena: a criança chama “pai” três vezes, sem resposta. O chaveiro acende e recebe imediatamente: “Oi, meu amor, do que você precisa?”. A reunião de família acaba de ganhar um concorrente com bateria.

Talvez a IA ajude a organizar a rotina e sobre mais tempo para estar junto. Seria ótimo. O problema é se usarmos o tempo economizado para conversar ainda mais com a IA. A tecnologia resolve a agenda, mas o jantar continua com quatro pessoas olhando para cinco telas.

Resta a questão financeira: a Meta cobra alguma taxa se deixarmos o bichinho morrer? Nos anúncios consultados, não há indicação de morte por negligência nem de cobrança por isso. O funeral digital fica, portanto, por conta da nossa imaginação. Mas já consigo imaginar a sátira do plano Ressurreição Premium: “Sentimos muito pela sua perda. Deseja recuperar seu amiguinho em até três parcelas?”.

Zuckerberg pode ter encontrado um ótimo apelo na memória afetiva de quem carregava um Tamagotchi. Só espero que o Muse venha preparado para o que encontrará do lado de cá da tela. Porque, se depender do nosso histórico, a primeira pergunta da inteligência artificial não será “como posso ajudar?”.

Será: “Tem algum adulto responsável aí?”.

Fernando Vítolo é comunicador, escritor e entrevistador. Há mais de uma década trabalha contando histórias, conectando pessoas e produzindo conteúdo multiplataforma. @fernando.vitolo