• Home
  • Humor
  • É mais barato distribuir canetas emagrecedoras do que picanha?
Humor

É mais barato distribuir canetas emagrecedoras do que picanha?

Depois do churrasco no discurso eleitoral, Lula promete tratamento para obesidade no SUS. A dúvida é se a conta emagrece junto.

A política brasileira conseguiu transformar o apetite em programa de governo. Na eleição passada, Lula vendeu o sonho da picanha no prato. Agora, promete canetas emagrecedoras pelo SUS. O eleitor, que ainda tentava organizar o churrasco, passou a acompanhar os anúncios com uma dúvida: é para abrir o apetite ou controlar?

A pergunta vem pronta: será que é mais barato distribuir canetas emagrecedoras do que picanha? Antes que alguém apresente a redução da fome como estratégia para baratear o supermercado, convém separar a piada da política pública. Tratar obesidade é uma questão de saúde. E promessa presidencial precisa de algo além de uma boa frase: orçamento, critérios e data para começar.

Lula anunciou a intenção de oferecer os medicamentos gratuitamente em 17 de setembro, durante visita à Eurofarma, em Montes Claros. Não informou quando a distribuição começaria nem esclareceu se seria neste mandato ou em um eventual próximo. A caneta apareceu no discurso; o calendário ficou para depois.

Existe, porém, algo além do palanque. Em 24 de setembro, o Ministério da Saúde protocolou na Conitec, comissão que avalia novas tecnologias para o SUS, um pedido de análise da incorporação desses medicamentos. Portanto, até 28 de setembro de 2026, o quadro era este: pedido apresentado, distribuição nacional ainda não liberada. Protocolo é avanço, mas ninguém aplica protocolo na barriga.

Também há pesquisa em andamento. O estudo Real-Bari, desenvolvido com o Grupo Hospitalar Conceição, em Porto Alegre, prevê acompanhar 250 pacientes com obesidade grave ou associada a outras doenças. Isso é diferente de chegar ao posto de saúde e pedir uma caneta junto com a atualização da carteirinha.

E a promessa é viável? Pode ser, dependendo do preço negociado, do público atendido e do dinheiro disponível. O Ministério da Saúde argumenta que a concorrência reduziu os preços e pede avaliação de semaglutida ou liraglutida. A eventual oferta deverá ter critérios clínicos. Não foi anunciado um programa “Projeto Verão para Todos”.

O obstáculo é que o orçamento público não perde peso por decreto. Em 2025, o próprio governo rejeitou a incorporação de semaglutida para um grupo específico de pacientes, após avaliação que apontou custo elevado, impacto orçamentário e incerteza sobre a duração do tratamento. Uma nova análise pode chegar a outra conclusão, mas precisa demonstrar o que mudou.

Quanto custará agora? Ainda não há uma conta total divulgada para a promessa presidencial. O comunicado de 24 de setembro não apresenta orçamento global nem número definitivo de beneficiários. Em uma proposta separada, da Novo Nordisk, o atendimento com Wegovy a 38.598 pacientes com obesidade e histórico de infarto foi estimado pela fabricante em R$ 500 milhões a R$ 650 milhões por ano, segundo a Folha de S.Paulo. Esse valor não é o orçamento aprovado do anúncio de Lula.

Ou seja: pode haver benefício para a saúde, mas ainda falta saber o tamanho da despesa. A gratuidade será para quem receber o medicamento. O contribuinte participa do tratamento pelo financiamento.

Voltamos, então, à picanha. Não dá para afirmar qual sairia mais barato sem definir preços, quantidades, frequência e quantas pessoas receberiam cada coisa. E a promessa da carne no prato falava de poder de compra, não de uma retirada de contrafilé — muito menos picanha — no balcão do SUS.

Mas a evolução do discurso merece registro: primeiro, a promessa era o brasileiro poder comer melhor. Agora, inclui um medicamento que ajuda a controlar o apetite. O eleitor só espera que uma proposta não seja apresentada como solução para a demora da outra.

Entre a picanha e a caneta, o brasileiro continua esperando o acompanhamento: uma data, uma verba e a entrega.

Fernando Vítolo é comunicador, escritor e entrevistador. Há mais de uma década trabalha contando histórias, conectando pessoas e produzindo conteúdo multiplataforma. @fernando.vitolo