Mais do que uma festa italiana: Achiropita celebra 100 anos de tradição, fé e voluntariado em São Paulo
Quando agosto chega, o bairro do Bixiga ganha um aroma inconfundível de molho de tomate, massas e fogazza recém-frita. Mas quem conhece a Festa de Nossa Senhora Achiropita sabe que o verdadeiro ingrediente que faz desse evento um dos maiores símbolos da cultura italiana no Brasil não está no cardápio. Ele está nas pessoas.
Em 2026, a tradicional Festa da Achiropita chega à sua 100ª edição, celebrando um século de história. O que começou como uma iniciativa para arrecadar recursos para a construção de uma pequena capela destinada aos imigrantes italianos transformou-se em um dos maiores eventos culturais e religiosos do país.
Segundo Maria Emília, da equipe de Comunicação e Marketing da festa, esse legado continua vivo porque a Achiropita se sustenta sobre três pilares: a devoção a Nossa Senhora Achiropita, a preservação das tradições italianas e as obras sociais mantidas pela paróquia.
“Quando as pessoas chegam à festa, elas percebem que existe algo diferente. Não é apenas uma festa italiana. Existe uma história, uma comunidade e um propósito por trás de tudo isso”, afirma.
Uma engrenagem que funciona o ano inteiro
Quem visita a festa durante os finais de semana de agosto dificilmente imagina que a organização do evento começa praticamente quando a edição anterior termina.
Assim que a festa acaba, já em setembro, inicia-se uma avaliação completa para planejar o ano seguinte. A estrutura envolve dezenas de coordenadores, centenas de reuniões e um trabalho que mobiliza aproximadamente 1.200 voluntários, além de licenças, equipes de segurança, bombeiros, engenheiros e uma extensa preparação logística.
Tudo isso para que, durante alguns finais de semana, milhares de visitantes encontrem uma festa funcionando com organização, acolhimento e o clima familiar que se tornou sua marca registrada.
O segredo está nos voluntários

Ao contrário de muitos grandes eventos, a Festa da Achiropita não terceiriza sua essência. As receitas são preparadas pelos próprios voluntários, muitos deles seguindo tradições transmitidas entre gerações. É esse envolvimento que, segundo Maria Emília, faz com que quem visita a festa perceba uma atmosfera diferente.
“Não são empresas preparando os pratos. São pessoas que colocam carinho em cada receita e sabem exatamente por que estão ali.”
Entre essas pessoas está Sthelamar Torres, voluntária há quatro anos. Ela conta que decidiu dedicar parte do seu tempo para inspirar, acolher, aprender e caminhar ao lado dos outros voluntários. O que a faz voltar todos os anos é justamente o espírito de dedicação e o reencontro com amigos que compartilham do mesmo propósito.
O momento mais emocionante, segundo ela, acontece antes mesmo da festa abrir ao público.
“Quando toca a música de abertura e começamos a preparar as massas e os recheios, a emoção é muito grande. É ali que sentimos que mais uma edição está começando.”
Muito além da famosa fogazza

É impossível falar da Achiropita sem lembrar da tradicional fogazza, considerada por muitos visitantes a melhor da cidade. A receita exclusiva e preparada artesanalmente virou um dos maiores símbolos da festa.
Mas, para quem participa pela primeira vez, Sthelamar faz um convite que vai além da gastronomia.
Ela incentiva os visitantes a conhecerem também os projetos sociais mantidos pela igreja ao longo do ano e lembra que a verdadeira experiência da Achiropita está em viver o ambiente de alegria compartilhado entre famílias, amigos e voluntários.
“A fogazza é incomparável. Mas o mais bonito é ver as pessoas felizes, reunidas e fazendo parte dessa grande festa.”
Uma experiência que vai além da comida

Depois de 100 anos, a Festa da Achiropita continua mostrando que tradição não significa olhar apenas para o passado.
Ela permanece viva porque consegue reunir fé, cultura, solidariedade e o trabalho de milhares de pessoas que transformam um evento gastronômico em uma verdadeira celebração comunitária.
Quem visita a festa leva na memória o sabor das receitas italianas. Mas é o acolhimento, a dedicação dos voluntários e o sentimento de pertencimento que fazem tanta gente voltar todos os anos.
Fernando Vítolo é comunicador, escritor e entrevistador. Há mais de uma década trabalha contando histórias, conectando pessoas e produzindo conteúdo multiplataforma. @fernando.vitolo










