Inteligência Artificial

O que as empresas ainda não entenderam sobre IA?

A nova era dos dados e do comportamento: o que as empresas ainda não entenderam sobre IA

Em um episódio provocativo do podcast Você Está Contratado, apresentado por Marcelo Nóbrega e Jederson Beck, o executivo Rafael Gregório trouxe uma visão rara sobre o futuro da inteligência artificial: tecnologia sem compreensão humana não gera impacto real.

Senior Head de Dados e Modelos de IA do Santander e reconhecido entre os 50 executivos de tecnologia e inovação de destaque no mercado brasileiro, Rafael falou sobre carreira, cultura, comportamento humano, liderança e os bastidores da corrida desenfreada das empresas por inteligência artificial.

Mas talvez a principal provocação do episódio tenha sido esta:

“IA não é tecnologia pela tecnologia. É ferramenta para resolver problemas reais das pessoas.”

O problema que faz a maioria dos projetos de IA fracassar

Para Rafael Gregório, o maior erro das empresas hoje é investir em inteligência artificial sem clareza sobre o problema que querem resolver. Segundo ele, muitos projetos nascem porque “todo mundo está fazendo”, mas sem um objetivo concreto de negócio ou uma transformação perceptível para as pessoas.

“O impacto não é só mexer em um indicador ou aumentar ROI. Impacto é quando as pessoas percebem que algo mudou na vida delas, na rotina delas ou no negócio delas”, explicou.

Na prática, ele acredita que muitos projetos até conseguem gerar números positivos internamente, mas fracassam porque ninguém sente a diferença. E quando isso acontece, a inovação não se sustenta.

Dados são importantes. Mas comportamento humano é ainda mais

Ao longo da conversa, Rafael mostrou como sua trajetória saiu da economia tradicional para um mergulho profundo em comportamento humano. Natural de Brasília, ele começou a carreira muito jovem em uma multinacional, passou pelo Banco do Brasil, teve experiências nos Estados Unidos e no Vale do Silício e acabou construindo uma visão pouco convencional sobre dados.

Para ele, os modelos mais poderosos não são necessariamente os que possuem mais processamento, mas os que entendem melhor pessoas. Um dos exemplos mais curiosos do episódio foi quando revelou um projeto internacional de análise de crédito baseado em comportamento — sem solicitar documentos ou comprovação de renda.

O modelo avaliava padrões comportamentais, conexões sociais e até interações digitais para prever risco de inadimplência.

“Hoje a IA permite extrair conhecimento escondido. Mas isso só funciona quando você entende pessoas, e não apenas números”, afirmou.

O Vale do Silício não era o que ele imaginava

Outro momento marcante da entrevista foi o relato sobre sua experiência no Vale do Silício. Ao contrário da imagem glamourosa que muitos imaginam, Rafael descreveu ambientes simples, quase improvisados, mas extremamente ricos em cultura de inovação.

Ele contou que trabalhou em uma aceleradora onde o café ficava estrategicamente no centro do andar para estimular encontros rápidos entre empreendedores. Enquanto enchiam uma xícara, cada pessoa fazia um pitch de um minuto sobre sua startup.

“Ali eu entendi que inovação não está no prédio bonito. Está na cultura das pessoas.”

A experiência também mostrou para ele algo que levaria para o resto da carreira: soluções extraordinárias nascem da obsessão em resolver problemas reais.

A IA virou commodity. A diferenciação agora é humana

Uma das reflexões mais fortes do episódio foi sobre o atual estágio da inteligência artificial. Para Rafael, a tecnologia já está se tornando acessível para todos. O diferencial competitivo, portanto, não será mais simplesmente “usar IA”. Será usar IA de forma mais humana, personalizada e contextual.

“A IA já é commodity. O que gera diferenciação é entender comportamento humano.”

Segundo ele, muitas empresas ainda operam no modo “pau na máquina”: jogam grandes volumes de dados nos sistemas esperando que alguma resposta milagrosa apareça. Mas os times mais inteligentes fazem o oposto. Estudam comportamento, observam pessoas, analisam contextos culturais e transformam isso em variáveis estratégicas dentro dos modelos.

O futuro do trabalho será menos linear

Rafael também trouxe uma visão interessante sobre carreira. Ele acredita que o modelo tradicional, subir verticalmente dentro de uma empresa, está perdendo força. Em vez disso, profissionais precisarão construir carreiras temáticas, guiadas por assuntos que realmente despertam interesse e curiosidade.

“O maior desafio dos próximos anos será manter foco em meio a tantas distrações e mudanças.”

Para ele, o profissional do futuro precisará unir profundidade técnica com repertório amplo. Ou seja: não basta ser especialista. Será necessário conectar diferentes referências, culturas, experiências e visões de mundo para criar soluções realmente inovadoras.

RH, universidades e empresas terão que se reinventar

Outro ponto forte do episódio foi a discussão sobre educação corporativa e capacitação profissional. Segundo Rafael, universidades, empresas e áreas de RH ainda operam em um ritmo incompatível com a velocidade da inteligência artificial. Ele acredita que os modelos tradicionais de treinamento como cursos longos, estruturas rígidas e trilhas demoradas, precisarão mudar radicalmente.

“A pergunta agora não é mais como ensinar. É como ensinar rápido.”

Na visão dele, a IA permitirá criar treinamentos personalizados, dinâmicos e praticamente instantâneos, moldados para diferentes perfis de pessoas, contextos e necessidades.

Uma conversa sobre tecnologia, mas principalmente sobre gente

Apesar de falar sobre IA, machine learning, comportamento e futuro do trabalho, o episódio inteiro gira em torno de um ponto central: pessoas. Rafael Gregório defende que a próxima grande transformação tecnológica não será apenas sobre máquinas mais inteligentes. Será sobre humanos mais conscientes de como usam tecnologia para gerar impacto real.

E talvez essa seja a principal mensagem deixada pela conversa: No futuro, os profissionais mais valiosos não serão os que apenas dominam ferramentas. Serão os que conseguem entender gente.

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