“Quem não contempla perde o cerne”: Silvestre Kuhlmann lança álbum de sonetos, silêncio e resistência artística.
Enquanto o mundo acelera vídeos de quinze segundos, músicas descartáveis e conteúdos feitos para distrair, o cantor e compositor brasileiro Silvestre Kuhlmann segue caminhando na direção oposta. Seu novo álbum, “Aos Filhos”, décimo quarto trabalho da carreira, não foi feito para tocar de fundo. Foi feito para ser ouvido.
O disco reúne 12 canções construídas a partir de sonetos do poeta Antônio Carlos Santini, musicados e interpretados por Silvestre. Com violões delicadamente sobrepostos e poucos elementos além do essencial, o álbum aposta justamente naquilo que parece cada vez mais raro: profundidade, contemplação e silêncio.

“Decidi transformar os sonetos em canções porque eles me emocionavam. Eram poesias perfeitas. Eu queria ver como ficariam com música”, conta o artista.
Para Silvestre, o encontro entre poesia e melodia acontece de maneira quase natural. “Quando se lê um poema, já se sente o ritmo e a acentuação dele. Aí é trabalhar na melodia e harmonia.”
Ao longo da carreira, sua relação com a composição também mudou. Se no início fazia primeiro as músicas para depois escrever as letras, hoje prefere dialogar com textos já prontos e com outros compositores. “Hoje gosto de musicar poemas já feitos, mandar letras que fiz pra músicos, e colocar letra em músicas já feitas. Pra mim, essa é a forma mais difícil.”
Música para tempos ansiosos
Em uma época dominada pela velocidade das redes sociais e pela lógica do consumo imediato, “Aos Filhos” parece quase um manifesto silencioso contra a distração permanente.
“O silêncio é um ato de resistência e de sobrevivência pra mim. O barulho me desconexa. De silvestre, viro selvagem”, afirma, em uma das respostas mais simbólicas da entrevista.
A escolha por uma sonoridade mais limpa e centrada nos violões reforça essa proposta. Segundo ele, a decisão foi artística, mas também funcional: permitir que os poemas respirassem.
“Gosto muito de sobrepor violões. Era minha marca nos primeiros trabalhos. Com o tempo, a gente pensa: seria legal um cello aqui, uma flauta ali, uma percussão acolá. Mas neste álbum optei por menos instrumentos pra destacar a riqueza dos sonetos.”
Silvestre sabe que sua música exige atenção — algo cada vez mais raro em tempos de algoritmo.
“Quando o artista resolve fazer tudo ao contrário, ele pode fazer ‘o avesso do avesso’, que é o certo. Pode emocionar alguém se ela não se distrair.”
Ainda assim, ele evita demonizar completamente a tecnologia. Para ele, o problema não está apenas no algoritmo, mas na relação humana com ele.
“Se a pessoa é sem profundidade, o algoritmo vai enfiar um monte de porcaria pra ela consumir sem parar. Mas se a pessoa sabe selecionar, pode encontrar alguma pérola.”
“A velocidade das redes gera homens sem peito”
Ao refletir sobre os impactos das redes sociais na sensibilidade humana, Silvestre mistura poesia, crítica e humor.
“A velocidade das redes gera ‘homens sem peito’, com cabeças que separam orelhas surdas. Vou patentear esta frase”, brinca.
A fala remete diretamente à ideia de uma humanidade cada vez mais acelerada e menos contemplativa — algo que atravessa todo o conceito do álbum.
Para ele, a perda da contemplação produz consequências profundas.
“Às vezes vejo pessoas correndo num parque lindo ouvindo música num fone. Ela perde os sons das aves, pode até sofrer um acidente… Quem não contempla não separa o natural do espiritual, julga rápido, fala frases feitas, não discerne. Perde o cerne.”
Fé sem embalagem
Embora seja frequentemente associado à música cristã, Silvestre evita fórmulas prontas ou discursos simplificados. Em suas canções, espiritualidade aparece mais como experiência humana do que como produto de mercado.
“Produto se consome. O consumo consome o consumidor. Já a espiritualidade faz transcender.”

Essa visão também abre espaço para temas pouco explorados dentro da música religiosa contemporânea, como dúvida, medo e angústia.
“Tudo o que é humano não pode soar estranho dentro da espiritualidade. Sim, medo, angústia e dúvida habitam também em mim.”
A mesma complexidade aparece em sua visão sobre arte e literatura. Para ele, profundidade e beleza não são necessariamente a mesma coisa — mas o ideal é quando caminham juntas.
“Pode ser belo sem ser profundo e pode ser profundo sem ser belo. O desafio é fazer o belo profundo e o ‘pro fundo’, com beleza.”
“Já não quero perder tempo”
Depois de 14 álbuns lançados, Silvestre parece cada vez menos preocupado com classificações, nichos ou expectativas externas.
“Perdi a pretensão de ser popular. Ou erudito. Só quero fazer o que amo, o que acredito.”
E conclui com uma frase que talvez resuma não apenas “Aos Filhos”, mas toda sua trajetória artística:
“Já não tenho mais tanto tempo, e não quero ter nenhum tempo a perder.”
Num cenário em que a música frequentemente disputa atenção com notificações, cortes rápidos e consumo automático, Silvestre Kuhlmann continua apostando no contrário: canções que pedem pausa, silêncio e presença. Não para escapar do mundo — mas talvez para enxergá-lo melhor.
Você pode ouvir o álbum completo aqui ó!
Fernando Vítolo é comunicador, escritor e entrevistador. Há mais de uma década trabalha contando histórias, conectando pessoas e produzindo conteúdo multiplataforma. @fernando.vitolo









